AFROFUTURISMO: Ensaios sobre narrativas, definições, mitologia e heroísmo

Manzel Bowman 1

Tudo começa com uma história, quando abrimos os olhos para uma nova realidade.

A realidade de Nina Oníṣẹ, naquele momento, era estar cercada por trinta guardas fortemente armados.

– Eita, gente. Será que eu tô encrencada…?

Mãos para o alto, na beira de um terraço. Mais um passo para trás, e ela cairia de uma altura de quarenta andares. Topo da torre Olabukunola, Setor 11 da Rua Treze; propagandas holográficas brilhavam nos arranha-céus, enquanto carros voadores congestionavam o tráfego aéreo. O terraço, do tamanho de um campo de futebol, com chão de terra, capim e folhas verdes enormes, estava todo tomado pelos guardas, uniforme azul da empresa de segurança Àkọsílẹ Oju, capacetes psicotrônicos e rifles de plasma fantasmagórico, todos apontados para a Nina.

Já a nossa heroína não tinha nada além de microdispositivos do seu traje branco e um antebraço tecnorgânico. Nenhuma arma à vista, apenas um sorriso.

–Meu pai Ògún… Cês tão muito estressados! A gente podia tomar umas no bar, que que cês acham?

– Chega de gracinhas – disse a comandante da tropa. Ela voava com uma mochila telecinética – Sou a Capitã Opeyemi. Em nome da Àkọsílẹ Oju, exijo que entregue o arquivo roubado, ou você encontrará os ancestrais mais cedo…

– Sério? – disse Nina – Nem sei do que cês tão falando. Vão me prender, me torturar, me matar? As Corporações já fizeram isso comigo, com vários jovens, vocês, tradicionalistas, são opressores, não passarão!

– Isto aqui não é um dos seus posts vitimistas, garota – disse a Capitã – Sua militância da rede e sua milícia rebelde não significam nada.

– Ah – exclamou Nina, contente – Cê lê meus posts, Capitã? Que daora!

– Chega – decretou Opeyemi – Atirem!

Vários disparos jorraram ao mesmo tempo: jatos de fogo multicolorido, filetes de água fervente, raios laser e disparos invisíveis de força telecinética; todos explodiram a área em que a Nina se encontrava, mas nenhum a acertou; ainda de mãos ao alto, a jovem tinha se jogado para trás, estava caindo…

…mas não por muito tempo, já que a mochila de voo e o capacete da Capitã estava vindo ao seu auxílio. Com apenas o poder do pensamento, Nina havia ordenado que os equipamentos abandonassem a comandante para se ligar a ela em queda livre; em segundos, Nina estava alcanço voo, enquanto a Capitã Opeyemi soltava sonoros palavrões do alto da torre.

– O mito Nina Oníṣẹ vive mais uma vez pra criar uma nova realidade! – celebrou ela para si mesma, enquanto voava em disparada pelos céus de Ketu Três.

 

Manzel Bowman 6

Uma narrativa afrofuturista

Tudo começa com uma história.

Era uma vez, uma jovem chamada Nina Oníṣẹ, moradora de Ketu Três. Nina pode ser descrita como uma mulher de ação, que luta pelo que acredita por todos os meios necessários. Inventora de artefatos impressionantes até para a tecnologia futurista de sua cidade, ela é uma das líderes do grupo Iṣọtẹ, organização clandestina que tem por pretensão derrubar a elite psíquica da metrópole.

Ketu Três é também chamada de Cidade das Alturas, pois se trata de uma metrópole flutuante que navega pelos céus do mundo; repleta de carros voadores, celulares holográficos e outras tecnologias incríveis, muitos definiriam tal ambiente como pertencente ao gênero ficção científica, cuja tecnologia ficcional possui uma fachada de realismo; porém, se é necessário classificar, eu diria que se trata de uma ciência fantástica, uma vez que a racionalidade é deixada de lado para favorecer a fantasia e a imaginação afro-inspiradas; nesse sentido, toda a tecnologia de Ketu Três é alimentada por uma fonte sobrenatural: a energia eletromagnética dos fantasmas e espíritos ancestrais.

Nina possui poderes psíquicos, elemento típico das histórias em quadrinhos; no universo de Ketu Três, acredita-se que esses dons sobrenaturais são uma herança dos antepassados, de uma época mítica na qual heroínas e heróis ancestrais ostentavam poderes divinos; hoje, no entanto, apenas dez por cento da população manifesta habilidades sobrenaturais, e tal minoria acabou se tornando a casta dominante da cidade. Essa elite psíquica recebeu o nome de ẹmí ẹjẹ, “sangue dos espíritos”. Nina Oníṣẹ é uma ẹmí ẹjẹ rebelde, que se opõe à elite que governa a metrópole. Ela possui o dom da eletrocinese, ou seja, é capaz de controlar máquinas e equipamentos eletrônicos apenas com a força do pensamento.

Os nomes incomuns que aparecem nestes escritos são verbetes da língua iorubá, um dos povos africanos trazidos para o Brasil e Américas durante a diáspora forçada da escravidão; hoje, a cosmovisão, cultura, filosofia e ciência dos iorubás existem nos países americanos por meio de seus descendentes, e se apresenta de forma mais concreta nas religiões de matriz africana, tal como o candomblé, umbanda, tambor de mina, batuque, xangô, santería e vários outros cultos à ancestralidade. A pretensão das histórias ambientadas em Ketu Três – cujo nome nos remete à ancestral cidade do Rei Ọ̀ṣọ́ọ̀sì (Oxóssi) – é recriar o passado de valores, espiritualidade e tecnologia africanos por meio de narrativas ficcionais que projetam um futuro no qual o mundo iorubá prevaleceu. Pois, considero verdadeiro que os ingleses receberam sua civilização de Roma; os romanos da Grécia; a Grécia da Pérsia; a Pérsia da Caldeia; a Caldeia da Babilônia; a Babilônia e os hebreus do Egito; e os egípcios, de Ilê-Ifé, (Fabunmi, 1957).

Todos os nomes no idioma iorubá possuem um significado; por exemplo, o grupo da Nina, Iṣọtẹ, significa “rebelião”, enquanto que Oníṣẹ significa “artífice”. As pessoas que possuem dons psíquicos são as chamadas de ẹmí ẹjẹ, sendo ẹmí, “espírito”, “sopro”, “alma”, e ẹjẹ, “sangue”, pois “o sangue é a expressão física da energia eletroquimicomagnética que constitui a força (essência) que guarnece e anima a vida” (Nobles , 2009).

E, se não ficou suficientemente explícito, Nina Oníṣẹ é uma jovem melaninada, da mesma forma que todas as demais pessoas de Ketu Três. Ou seja, é um povo de pele escura, em seus vários tons, com traços negroides – olhos, narizes, lábios, cabelos, etc. São seres humanos, pois, neste universo, alienígenas são os outros. Considerando o contexto brasileiro, no qual uma maioria populacional simplesmente não existe para as novelas, revistas, filmes, peças e livros, tal distinção é significativa.

Nina Oníṣẹ e seu universo são uma mitologia afrofuturista.

 

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Definindo o afrofuturo

Afrofuturismo é esse movimento de recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica. Foi assim que defini o termo pela primeira vez, num post do meu blog em 2016, e tal definição, para minha surpresa, veio a figurar no livro Na minha pele, do grande ator afro-brasileiro Lázaro Ramos (2017, p. 144). Pode-se dizer, portanto, que se trata da minha explicação favorita; no entanto, se me solicitassem uma definição mais concreta, poderia dizer que afrofuturismo seria a mescla entre mitologias e tradições africanas com narrativas de fantasia e ficção científica, com o necessário protagonismo de personagens e autores negras e negros.

Quando tive contato com a palavra afrofuturismo pela primeira vez, por volta de 2014, não me preocupei tanto com classificações, mas sim com como poderia criar novas histórias e novas realidades a partir da inspiração causada por aquele termo. Foi assim que começou a surgir as primeiras narrativas sobre Ketu Três, cuja primeira história culminou no O Caçador Cibernético da Rua 13 (2017), no qual nossa personagem Nina Oníṣẹ desempenha importante papel. Como romancista, compreendo termos e padrões por meio da linguagem ficcional e da criação de novas narrativas. Mais tarde, fui compreender que é exatamente disso de que o afrofuturismo se trata: contar novas histórias, novas possibilidades de futuro para além do eurofuturismo que é imposto como padrão.

Afrofuturismo é nos lembrar do que esquecemos. Infelizmente, ainda é comum afirmarem que a África não criou nem contribuiu com nada para o legado da humanidade; o cúmulo do absurdo é a afirmação de que os africanos deveriam agradecer aos europeus e sua escravidão perversa por saírem da “idade da pedra”. No entanto, o cenário é o exato contrário. “O Antigo Egito foi uma civilização negro-africana”; “a ciência, a medicina, a filosofia, a arquitetura, a engenharia, a astronomia e a arte civilizada surgiram primeiro no Vale do Nilo”, e “os reinos pré-coloniais da África desenvolveram sistemas e formas de governo e de organização social altamente sofisticados” dizem três das sete teses paradigmáticas de Cheikh Anta Diop[G5] [FK6] , maior intelectual africano da era moderna. O trabalho de Diop, até hoje muito contestado pelo ocidente, provou-se verdadeiro e cientificamente comprovado, e tem sido referência para vários estudiosos africanos e afrodescendentes que vieram depois.

A genialidade africana não se limita aos antigos egípcios, bem como nos lembra Fabunmi e sua teste sobre o pioneirismo iorubá – saibam que a Grandes Muralhas do Benim são a maior infraestrutura geotécnica de todos os tempos, quatro vezes maior que a muralha da China. Matemática, medicina, linguagem, arquitetura, engenharia, metalurgia, navegação, direito, astronomia, filosofia, tudo isso nasceu primeiro em solo africano, criado por negros africanos. “Até que os leões contem a sua história, os contos de caça sempre glorificarão o caçador”, diz Chinua Achebe. Portanto, afrofuturismo é fundamentar uma nova identidade de futuro a partir do passado africano de ciência e tecnologia, arte e espiritualidade.

A seguir, apresentamos múltiplas concepções para o afrofuturismo, uma vez que se trata de um termo invariavelmente amplo.

Segundo Ytasha L. Womack, afrofuturismo é “uma reelaboração total do passado e uma especulação do futuro repleta de críticas culturais […] uma interseção entre imaginação, tecnologia, futuro e libertação” (2013). Womack reúne visões de profissionais diversos, tais como o da curadora Ingrid LaFleur, que vê o afrofuturismo “como um modo de encorajar a experimentação, reimaginar identidades e ativar a libertação”. Já Kênia Freitas diz que “é um movimento que abrange diversas narrativas de ficção especulativa – aquela que se propõe a especular sobre o futuro ou o passado – sempre da perspectiva negra, tanto africana quanto diaspórica”.

É notável que em todas as definições, enfatiza-se o necessário protagonismo de personagens e autores africanos ou afrodescendentes. Essa distinção é pertinente, uma vez que o afrofuturismo se estrutura para suprir uma ausência. As ficções fantástica e científica mainstream, apesar de serem gêneros que supostamente prezam pela experimentação e imaginação, acabam sempre contando as mesmas histórias, protagonizadas pelos mesmos personagens da mesma cor, gênero e orientação sexual, com base nos mesmos imaginários, mitologias e cosmovisões. “Nós precisamos de imagens do amanhã; e nosso povo precisa mais do que a maioria. Só tendo imagens nítidas e vitais das muitas alternativas, boas e ruins, de onde se pode ir, teremos qualquer controle sobre a maneira de como chegaremos lá” (Delany, 1984).

Dessa forma, a temática afrofuturista surge como um convite para a criação de narrativas afro-inspiradas, em todas as esferas possíveis. No contexto do afro-Brasil, tal necessidade se torna ainda mais urgente, tamanha a carência de visões e narrativas nas quais os afrodescendentes sequer existam, pelo menos para além de estereótipos ambulantes. Essa “necessidade de imagens do amanhã”, conforme Delany salientou, trouxe naturalmente para mim a personagem Nina Oníṣẹ e todo seu universo. Afinal, precisamos de meios para ir além da distopia na qual estamos imersos.

 

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A distopia é agora

É importante ressaltar que o afrofuturismo “não é uma simples questão de inserir mais atores negros em narrativas de ficção científica” (Eshun, 2003). O estado de carência e desinformação do contexto afro-brasileiro às vezes leva a crer que a temática afrofuturista se resumiria à inclusão de afrodescendentes nas distopias típicas da ficção científica. “Por que não há negros nas ficções pós-apocalípticas?” perguntou, certa vez, um jovem universitário afro-brasileiro. Se perguntasse para mim, eu responderia: porque nós, pessoas pretas, já vivemos distopias todos os dias.

“Toda pessoa preta é uma pessoa deslocada de seu tempo”, disse-me o rapper Augusto Oliveira. O sequestro e a diáspora forçada durante a invasão e saque dos europeus à África impuseram aos africanos uma desorientação e um senso de não lugar que persiste até hoje nos seus descendentes. No caso brasileiro, o estado de alienação sofrido por um afrodescendente é tamanho que a brancura se torna o ideal a ser atingido – o que inclui o desejo de querer se aproximar mais das narrativas europeias do que das africanas. Desse modo que se explica a vontade de “representatividade” em cenários típicos das narrativas ocidentais, tais como as já mencionadas distopias.

Porém, “para as populações negras que sobreviveram à escravidão, ao colonialismo europeu e ao processo de globalização, o apocalipse já aconteceu (e segue sendo experienciado há séculos)” (Freitas, 2018). Tal afirmação é fundamentada no que diz Nalo Hopkinson (2017): “O que acontece é que nós pensamos em distopia e catástrofe como aquela coisa que acontece em outro lugar, ou que pode ser adiada, quando está acontecendo diariamente em todo o mundo”. Portanto, o afrofuturismo deve considerar essa mudança de perspectiva, do “eles” para “nós”, e isso ultrapassa, e muito, a esfera da mera “representatividade”.

Nesse sentido, é significativa também a argumentação de Nobles (2009) a respeito da dupla estratégia brasileira de miscigenar e segregar, o que “cria problemas fundamentais para a formação de uma identidade negra”. O incentivo à miscigenação, ao mesmo tempo em que se perpetua o racismo estrutural, causa uma enorme confusão identitária. Os ataques aos cultos de ancestralidade africana também são consequência dessa perversa estratégia, pois significa enfraquecer o poder espiritual negros, destruindo sua ciência e lógica ancestrais. “O embranquecimento é um ataque psicológico ao senso fundamental dos afro-brasileiros do que significa ser uma pessoa humana. […] Cem anos de embranquecimento causaram mais danos psíquicos aos africanos do que quatrocentos anos de escravidão racista e dominação colonial” (Nobles, 2009).

Ali na esquina de uma avenida movimentada, há uma comoção; vários transeuntes, sinceramente preocupados, pegando nos celulares, pedindo ajuda; estariam aqueles cidadãos de bem chocados com aquela família de pele escura, homem mulher e filhos, deitados em caixas de papelão no chão? Não. Toda aquela movimentação de cidadãos responsáveis era para a cadela que acompanhava aquela família, que tinha acabado de dar filhotes. A sincera preocupação era com os cachorrinhos. Narrativa de ficção distópica de algum livro? Não. Realidade do centro de São Paulo, a maior metrópole do Brasil.[G7] [FK8]

Dessa forma, é preciso ir além. Se o afrofuturismo possui alguma função na esfera da ficção entendo que seria a de resgatar a identidade e a ancestralidade perdidas; criar um novo futuro para transformar um presente que é imposto e mudar um passado que foi negado e deturpado. Obviamente, meras histórias de alguns livros não resolverão, como que num passe de mágica, a realidade traumática dos afrodescendentes.

Como romancista, portanto, compreendo o afrofuturismo na esfera da ficção; ora, para se libertar dessa distopia, vemos afrodescendentes declarando militância, agarrando-se a causas, discursos fortes, e ideologias contundentes, mesmo que essas sejam, na verdade, um ideal utópico, ficcional. Afinal, de certa forma, a ficção é a tolice na qual nos agarramos para fingir que estamos vivos. Acredito que todos vivemos, de uma maneira ou de outra, uma versão própria, ficcional, da vida real, e contamos que essa narrativa fantástica poderá nos sustentar nos desafios de viver a hostilidade de um mundo anti-negritude. “Dada a distopia em que vivemos, esse mundo hostil que nos odeia, acreditar num futuro negro é um mito” (Desireé, 2018).

Nesse sentido, entendo o afrofuturismo na esfera do mito.

 

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Um mito chamado afrofuturismo

A mitologia afrofuturista chamada Nina Oníṣẹ havia nascido no momento em que, de algum lugar dos mundos imaginários dentro de mim, uma mulher preta decidiu ela mesma fazer o que acha ser o certo. Nina se apresentou para mim como uma filha de Ògún (Ogum), o grande senhor da guerra, da agricultura e da tecnologia.

Foi Ògún quem ensinou aos seres humanos as artes da ciência. Criou a forja, as primeiras ferramentas, as técnicas de plantio e cultivo. Ensinou as artes da caça a humanos e até a respeito das divindades. É o guerreiro implacável, que mata com golpes de facão e se banha com o sangue de seus inimigos. Ògún é a manifestação dos aspectos cósmicos da criação tecnológica, da fúria e da guerra. São muitos os mitos em torno dessa divindade, os quais nos ensinam sobre como lidar com nossas emoções mais extremas e nos incentiva à criação de novas técnicas, novas ciências e novos caminhos para diferentes realidades.

Nina Oníṣẹ, a artífice que cria tecnologias de ferro e aço, a líder que abre caminhos e novas possibilidades por todos os meios necessários; é uma heroína filha de Ògún, que espelha os atributos e características de seu pai espiritual. “Ogum é o desbravador, aquele que vai à frente dos outros […] o orixá do ferro, patrono de todos os que comumente usam instrumentos ou ferramentas feitos desse metal.” (Lopes, 2005). Com efeito, na perspectiva iorubá, Nina é um aspecto de Ògún na terra, enquanto que a divindade que existe dentro dela é a melhor parte de si mesma.  Nina é uma heroína de uma mitologia afrofuturista.

“Afrofuturismo é um mito”, disse-me a filósofa Karolina Desireé, abrindo meus olhos para uma nova forma de pensar essa temática; afinal, criar histórias futuras, a partir deste presente, com o intuito de mudar o passado, é uma ficção. “O mito é um sonho coletivo; o sonho, um mito pessoal”, (Clyde W. Ford, 1999). “Podemos compreender o afrofuturismo enquanto um mito atemporal” (Desireé 2018), cuja pretensão é criar novas realidades por meio da criação ficcional, realidades que transcendem o contexto de exclusão, segregação, violência e solidão impostos aos africanos e afrodiaspóricos. Afinal, “quando enfrentamos um trauma, individual ou coletivamente, as lendas e os mitos são uma maneira de restabelecer a harmonia à beira do caos” (Ford, 1999).

Conforme, já pontuamos, o afrofuturismo objetiva uma mudança de perspectiva; para tal, é necessário um maior envolvimento com mitologias africanas, com o intuito de recriar o lugar e a dimensão do que significa ser um humano africano. “Acreditar nesse mito chamado afrofuturismo é o que o torna possível existir como movimento cultural” (Desireé, 2018). Devemos considerar que o mito, assim como a ciência, possui a pretensão de explicar as próprias leis do universo; logo, podemos inferir que aquele é tão ou mais complexo que este. “Decifrar o mito é decifrar-se; abrir-se ao mito é ouvir ressoar dentro de si o eco de antigas provações, reinventar significações esquecidas, reconhecê-las como aspectos do mesmo mundo humano” (Augras, 1983). Assim, compreendemos que a mitologia, seja num campo mais amplo ou num aspecto mais pessoal, sempre teve esse papel de guiar os seres humanos para vencer suas batalhas no mundo real.

Conforme salientamos anteriormente, a existência afrodiaspórica enfrenta tremendos desafios, impostos por um sistema de supremacia branca. Ao mesmo tempo em que a temática afrofuturista nos convida para a esperança de um futuro brilhante e utópico, também tem de lidar com a sisudez crítica de um pessimismo negro – uma fatia bastante significativa das narrativas, ficcionais ou não, elaboradas por afrodescendentes, mais parece um grito de desabafo. Não é da competência da ficção oferecer soluções milagrosas, conforme já dissemos. Porém, entendendo o afrofuturismo não como algo concreto, mas sim como mito, então podemos dizer que a mitologia afrofuturista é essa pretensão de criar e recriar novas inspirações, novas ficções e novas metafísicas, que vão fortalecer a aventura distópica das nossas vivências negras no mundo real.

Diante de tal perspectiva, considero extremamente pertinente enxergar o mito afrofuturista através do olhar do herói de rosto africano.

 

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Heroísmo de rosto africano

O passado recente de sequestro e escravidão, este presente de dominação e genocídio, e a incerteza e desesperança de um futuro são feridas profundas na alma dos afrodiaspóricos. A enormidade desse trauma foge ao alcance de qualquer um, incluindo nós, descendentes do Continente. No entanto, Molefi Kete Asante (2003) nos diz: “Os quinhentos anos de dominação europeia interromperam nossa marcha em direção ao progresso, mas não conseguiram apagar as contribuições dos milhares de anos de história anteriores à chegada dos europeus ao continente africano”. É a partir desse ponto assinalado por Asante que começo a entender o afrofuturismo.

A jovem Nina Oníṣẹ é uma das líderes de uma organização que se rebela contra a elite dominante de Ketu Três. Não se trata de uma mera questão de classe, e sim do direito de existir. Quando criança, Nina foi sentenciada a viver numa escola paramilitar e submetida a rígidos doutrinação e treinamento para integrar um esquadrão da morte a serviço dos interesses das Corporações. O crime de Nina? Nascer dotada de superpoderes sem pertencer a uma das famílias dominantes. Em dado momento, após muitos assassinatos, Nina se revolta contra seus patrões e passa para o lado dos ẹmí ẹjẹ rebeldes, os Iṣọtẹ, que se opõem às linhagens superpoderosas e seu sistema de dominação sobre os “comuns”. Nina Oníṣẹ é uma heroína de rosto africano.

Uma das pretensões do universo afrofuturista de Ketu Três é apresentar um mundo afrocentrado — i.e. agência, conscientização, centralidade, ciência, mitologia e cosmovisão africanas —, conceito que vai muito além da mera “representatividade”. Nina vive num universo ficcional de centralidade africana e, ainda assim, enfrenta desafios significativos de injustiças e interesses conflitantes; isso se deve ao fato de que um dos objetivos do afrofuturismo é apresentar o sujeito negro na sua centralidade humana de contradições, virtudes e falhas.

Um mundo afrofuturista de pretensão afrocêntrica é uma possibilidade, porém não é a única, uma vez que os afrodescendentes são múltiplos e diversos em suas vivências e verdades. De qualquer forma, para o indivíduo afro-brasileiro, são impostas duas alternativas: a negação de todas as mazelas, passadas e presentes, ou o desabafo constante sobre as dores do racismo – o que muitos caracterizam pejorativamente de “vitimismo”. Ambas opções, previstas pelo sistema, quando levadas ao extremo, nos limitam e nos impedem de ir além, para que a supremacia se perpetue.

Mas, e se tívessemos uma terceira alternativa?

Assim, considero fundamental a questão do herói de rosto africano. A expressão foi cunhada por Ford (1999) para compreender a experiência afrodiaspórica como narrativa mítica. Seu intuito era retratar a experiência histórica e atual dos descendentes africanos num relato que transcendesse tanto a vitimização quanto a negação. Ao revisitar diferentes culturas da enorme diversidade africana, Ford apresenta lendas heroicas do Continente como fonte de respostas para as inquietações mais profundas do espírito humano; “pois a aventura pública do herói por intermédio do mito tem sido há muito tempo uma esplêndida metáfora para a aventura privada da alma pela vida” (Ford, 1999). De acordo com Ford, os mitos e lendas são absolutamente verdadeiros, não como fatos e sim como metáforas, não como física e sim como metafísica. Essa distinção é importante, pois nos leva a compreender as narrativas míticas não à maneira do ocidente, ou seja, de forma histórica e conflitante com a ciência; e, sim, à maneira africana, ou seja, de forma simbólica, coexistindo com a ciência do mundo real. A pretensão é buscar uma cura para o nosso grande trauma histórico; tais premissas são extremamente pertinentes à temática afrofuturista.

Talvez possa parecer estranho comparar a vivência sofrida dos afrodescendentes a narrativas mitológicas, porém faz muito sentido numa perspectiva que se pretende afrocêntrica; infelizmente cada vez mais distantes de suas raízes, as negras ignoram o poder transformador do mito. Por sinal, a palavra mito, atualmente, é usada mais como sinônimo de inverdade do que de verdades eternas ensinadas por nossos antepassados. Ora, “é a realidade humana que o mito revela. Não descreve apenas as terríveis forças da natureza, mas ainda as tensões violentas e mais estranhas que residem no coração [humano]” (Augras, 1983). Assim, fica a pergunta: qual nova mitologia estamos criando para nós mesmos? Como alimentamos a heroína e herói de rosto africano que existe dentro de nós?

A partir da perspectiva de Ford, permitam-me explanar o herói de rosto africano a partir da minha própria mitologia pessoal: eu, Kabral, sou filho de Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, iniciado no Candomblé Ketu. Entendendo as divindades africanas como personificações de atributos encontrados na natureza e em nós mesmos, então compreendo Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, o Rei Caçador, como aspecto simbólico do conhecimento, da arte e da expansão de limites. Nas tradições africanas, caçadores exploram o desconhecido e retornam à comunidade com os frutos de novas descobertas; na esfera do mito, a caça funciona como metáfora para a busca e transmissão de artes e conhecimentos. Assim, Ọ̀ṣọ́ọ̀sì simbolicamente está presente na composição de uma música, na declamação de um poema, na pintura de um quadro, nos passos de uma dança, na escrita de um romance. Ao passar pelos rituais iniciatórios consagrados a Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, compreendi que os atributos e características por ele personificados despertaram em definitivo no centro da minha consciência, pois “é pela iniciação que o orixá recebe a autoridade de auxiliar os seres humanos a perceber e realizar seu destino” (Nobles, 2009).

Perante um cenário de desafios e barreiras, o mito é capaz de nos proporcionar visão, possibilidades e soluções, a partir das forças míticas que fervilham dentro de nós. Afinal, “é na busca do reino infinito, atemporal e incomensurável da alma humana que brilha a mitologia” (Ford, 1999).

Que tal um exemplo mais concreto sobre o impacto do mito na vida do afrodescendente? Jornais do Rio de Janeiro noticiaram que o menino Renato Siqueira de Castro, 15 anos, decidiu voltar a estudar após assistir ao filme afrofuturista Pantera Negra, um dos maiores fenômenos culturais dos nossos tempos. “Foi o Pantera Negra que me fez voltar a estudar. Sem a escola eu não consigo nada. Parei e pensei: pô, melhor eu voltar a estudar. Eu quero salvar vidas. Vi o Pantera Negra ter que virar rei depois que o pai morreu. Ele achou que não ia conseguir. Mas ele tinha estudo e conseguiu”, disse o jovem, agora estudando no sétimo ano de um colégio estadual. Renato, que sonha se tornar bombeiro desde que ele e seus irmãos foram salvos de um incêndio, acabou tendo a oportunidade de visitar o QG da corporação acompanhado do comandante-geral; o rapaz recebeu convite dos bombeiros por causa da reportagem sobre sua decisão inspiradora.

O herói de rosto africano, num mundo pós-colonial, representa a heroína e herói descendentes de rainhas e reis divinos, que sobreviveram aos horrores da travessia e da escravidão, e hoje lutam para se impor no mundo, para orgulhar a si e aos ancestrais. Na perspectiva afrofuturista, a importância de entender nossa trajetória como narrativa mítica é reconhecer e despertar os heróis ancestrais que existem dentro de nós, e, dessa forma, dar um novo passo para construir um novo futuro.

 

Manzel Bowman 5

O fim do início

O afrofuturismo é um símbolo, uma ficção, um mito, que surge como nova possibilidade de narrativa para os afrodiaspóricos. Como parte do projeto de embranquecimento espiritual e psicológico imposto aos descendentes africanos, as ficções fantástica e científica mainstream não foram concebidos para nos contemplar e tampouco retratar nosso imaginário. Ao objetivar o resgate das tradições e ciências africanas, o afrofuturismo surge como uma possibilidade de cura para as feridas profundas causadas por um mundo anti-negritude. É uma oportunidade de projetarmos, por meio da ficção, nossa religação com a ancestralidade, nos reapropriando das narrativas, imaginários e mitologias, e restaurando-os à sua originalidade africana. O afrofuturismo, orientado pela afrocentridade, nos convida a essa pretensão de entender os povos africanos como pioneiros da escrita, ciência, filosofia e artes; fundamentados por esse passado de tecnologia e espiritualidade, passamos a entender que somos aptos a criar um novo futuro com as nossas próprias mãos. Pois, acima de tudo, afrofuturismo é a liberdade de ser e expressar o que quiser.

Acompanhados da corajosa Nina Oníṣẹ de Ògún, e outras heroínas e heróis de rosto africano da mitologia afrofuturista, vamos abrindo os olhos para uma nova realidade. Afinal, tudo começa – e termina – com uma história.

BONUS TRACK 1 — Playlist pessoal sobre a temática afrofuturista:

 

BONUS TRACK 2 — Vídeo explicando o Afrofuturismo

 

Imagens do post: Manzel Bowman

 

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RAMOS, Lázaro. (2017) —“Na minha pele”, Editora Objetiva.

SANTOS, Juana Elbein dos. (1975) —“Os Nàgô e a morte”, Editora Vozes.

WOMACK, Ytasha L. (2013) — “Afrofuturism: the World of Black Sci-Fi and Fantasy Culture”, Lawrence Hill Books.

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