Artigo e atividades bem didáticos sobre AFROFUTURISMO

Estou dividindo com vocês o conteúdo de um artigo que fiz sobre Afrofuturismo a convite da FTD Educação e que foi originalmente publicado na edição 6 (jun/2020) da revista digital Articulação de Linguagens, disponível para as escolas adotantes do Sistema de Ensino da FTD. Espero que o presente artigo seja proveitoso especialmente para educadores e alunos.

Uma narrativa afrofuturista

“Eita, gente. Será que eu tô encrencada…?”

Ver-se cercada por trinta soldados armados no topo do prédio não era bem o que Nina Onixé* tinha em mente. A jovem levantou os dois braços para o alto e tentou trocar uma ideia.

“Meu pai Ogum… Cês tão muito estressados! A gente podia tomar umas no bar, que que cês acham?”

“Chega de gracinhas”, disse a comandante da tropa. Ela voava com uma mochila telecinética; “melhor devolver o arquivo que você roubou, ou vai encontrar seus ancestrais mais cedo…”

Nina sabia que não ia se safar dessa só na conversa, mas precisava ganhar tempo; ela continuou falando bobagens para a capitã da tropa, até irritá-la de verdade; os soldados então foram ordenados a atirar, e disparos de energia psíquica saltaram de seus rifles; Nina aproveitou a deixa para soltar do alto do arranha-céu… e utilizou seus dons sobrenaturais, que herdou de seu pai Ogum, para controlar a mochila telecinética da capitã; em questão de segundos, a mochila disparou para as costas da Nina, e a jovem revolucionária saiu voando pelos céus de Ketu Três, deixando para trás os palavrões da capitã e sua tropa.

*Nina Onixé aparece pela primeira vez no livro “O caçador cibernético da Rua 13” (2017) e também é personagem de destaque no livro “A Cientista Guerreira do Facão Furioso” (2019), ambos publicados pela Editora Malê.

Nina Onixé no traço de Rodrigo Cândido

Um mundo afrofuturista

Tudo começa com uma história.

Era uma vez uma jovem chamada Nina Onixé. Ela mora em uma metrópole chamada Ketu Três, lar do povo melaninado, filhos dos Orixás; Ketu Três é repleta de arranha-céus, carros voadores, parques florestais e terreiros corporativos, e é governada por sacerdotisas-empresárias com poderes paranormais e tecnologias fantásticas movidas a fantasmas. Filha do orixá Ogum, Nina é uma jovem cientista que cria artefatos sobrenaturais de alta tecnologia, e possui superpoderes de controle sobre as máquinas. Ela também é uma das  líderes do grupo Ixoté, organização clandestina que pretende derrubar a elite psíquica da metrópole e trazer mais igualdade entre as pessoas. Nina luta pelo que acredita por todos os meios necessários, e é uma heroína de um mundo afrofuturista. Como escritor, para mim a melhor forma de definir as coisas é a partir de uma história.

O que é o afrofuturismo?

“Esse movimento de recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica, para mim, é a própria definição de Afrofuturismo.”

Foi desse jeito que eu defini o afrofuturismo quando eu mal sabia o que significava. Quando me deparei com essa palavra, em vez de pensar “o que é isso?” pensei “que novas narrativas eu poderia criar a partir dessa palavra?”. E foi assim que comecei a escrever um livro chamado “O caçador cibernético da Rua 13”, no qual a personagem Nina Onixé surgiu pela primeira vez.

Surgido a partir da música, arte e literatura, afrofuturismo é um movimento cultural, estético, narrativo e filosófico que explora temas pertinentes à diáspora africana por meio de narrativas de ficção especulativa, a partir da perspectiva e necessário protagonismo de personagens e autores negros.

Apesar de existir desde a década 1950 nos Estados Unidos, e de só ser nomeado como afrofuturismo na década 1990, somente nos últimos tempos o movimento vem ganhando força no Brasil, graças ao sucesso do filme “Pantera Negra”.

Eu, pessoalmente, também gosto de definir o afrofuturismo como um resgate natural do passado africano de pioneirismo na ciência, arte, tecnologia, espiritualidade e literatura, pensando na declaração do cientista senegalês Cheikh Anta Diop: “A ciência, a medicina, a filosofia, a arquitetura, a engenharia, a astronomia e a arte civilizada surgiram primeiro no Vale do Nilo, criadas por negros africanos”.

Qual a origem do termo “afrofuturismo”?

O movimento foi assim nomeado em um texto de Mark Dery, “Black to the Future” (1993), no qual o autor conversa com os afro-americanos Samuel R. Delany (escritor de ficção especulativa), Greg Tate (crítico musical) e Tricia Rose (Professora da Universidade de Brown). Dery, que é um homem branco, questionou a escassez de escritores afro-americanos escrevendo ficção científica; ele então definiu afrofuturismo como “ficção especulativa que trata de temas afro-americanos e lida com preocupações afro-americanas no contexto da tecnocultura do século XX.”

Após ser nomeado por Dery somente em 1993, o afrofuturismo passou a ser mais elaborado e discutido a partir do ensaio “Future Texts” (2002), da escritora afro-americana Alondra Nelson, pioneira da teoria social sobre o afrofuturismo. “A negritude é construída como sempre de oposição às crônicas de progresso tecnologicamente orientadas”, diz Nelson, em seus estudos.

Quem são os pioneiros do movimento afrofuturista?

Antes de ser nomeado por Dery em 1993, o afrofuturismo nasceu na década de 1950, graças ao trabalho de Sun Ra.

Sun Ra (1914–1993) foi um compositor de jazz, pianista e poeta, conhecido por sua música experimental, sua filosofia cósmica, performances teatrais e produções cinematográficas. Pioneiro do afrofuturismo, Sun Ra alegava ser um alienígena de Saturno em missão de levar o povo negro para o espaço. A partir da obra de Ra, e de seus contemporâneos Lee “Scratch” Perry e George Clinton (Parliament, Funkadelic), com sua mescla de música, cosmologia e ancestralidade africana, foram surgindo mais músicos e bandas de orientação afrofuturista.

Na literatura, uma das primeiras escritoras a ser associada ao movimento afrofuturista foi a afro-americana Octavia Butler (1947–2006). Butler começou a publicar seus primeiros livros no final da década de 1970 e, no final da década seguinte, se tornou bem-sucedida como autora e conseguiu escrever em tempo integral. Seus livros e contos chamaram a atenção do público e da crítica especializada, e recebeu vários prêmios ao longo de 15 livros publicados. Octavia Butler vem sendo associada ao afrofuturismo desde o início.

Quais são as características que definem o afrofuturismo?

A partir dos questionamentos da filósofa Karolina Desireé, eu pensei e criei essas quatro características que considero fundamentais para uma narrativa ser considerada afrofuturista:

Protagonismo de personagens negros: “representatividade” é importante e a falta desta é um dos fatores que ocasionou a criação do afrofuturismo; porém, esta característica se propõe ir além disso; não é só inserir mais atores negros numa narrativa de ficção e sim ter personagens negros e suas experiências como centro da história.

Narrativa de ficção especulativa: O afrofuturismo nasce das perspectivas e experimentações de artistas negros em cima dos gêneros de fantasia e ficção científica, como podemos conferir na mitologia cósmica de Sun Ra e no funk espacial de George Clinton. O afrofuturismo essencialmente é um movimento cultural pautado em cima dos imaginários típicos das ficções fantástica e científica.

Afrocentricidade: Trata-se da autoconscientização de pessoas africanas como sujeitos e agentes atuando sobre sua própria imagem cultural, de acordo com seus próprios interesses humanos, conceito criado por Molefi K. Asante. Para mim, pensando nas minhas próprias obras, o afrofuturismo só faz sentido se tiver os imaginários, cosmologias, culturas, espiritualidades e perspectivas africanos e/ou afro-diaspóricos como centro do universo narrativo.

Autoria negra: O afrofuturismo nasce da ação e experimentação de artistas negros na intenção de contarem suas próprias narrativas a partir do seu próprio ponto de vista. Se o afrofuturismo é um movimento no qual as histórias são narradas a partir da perspectiva negra, então não faz sentido nenhum narrativas afrofuturistas que não sejam de autoria negra.

Qual a importância do afrofuturismo hoje?

Visto que vivemos em um mundo estruturado pelo racismo, que nega a contribuição africana para o mundo e que nega o próprio sujeito negro no mundo, o afrofuturismo se estrutura para suprir uma ausência e para tornar o sujeito negro o centro do seu próprio mundo. A fantasia e ficção científica, apesar de serem gêneros que supostamente prezam pela experimentação e imaginação, acabam sempre contando as mesmas histórias, protagonizadas pelos mesmos personagens da mesma cor, gênero e orientação sexual, com base nos mesmos imaginários, mitologias e cosmovisões.

O escritor ganês Kodwo Eshun diz que, num mundo que implícita ou explicitamente exclui a pessoa africana da sua projeção de futuro hegemônica, o afrofuturismo possui o papel fundamental de reorientar a pessoa negra na criação do seu próprio futuro, a partir da sua própria ótica. Alondra Nelson destaca que a questão do “outro alienígena” é um tema frequentemente explorado no afrofuturismo devido ao sequestro de pessoas africanas para este lugar que não nos contempla; ela também diz que, nas histórias criadas num contexto eurocêntrico, nunca associam a pessoa africana à ideia de tecnologia e progresso, e que as discussões em torno de raça, mesmo com as “melhores intenções”, muitas vezes acabam reforçando o que a escritora chama de “fosso digital”.

Dessa forma, a temática afrofuturista surge como um convite para a criação de narrativas afro-inspiradas, em todas as esferas possíveis. No contexto do afro-Brasil, tal necessidade se torna ainda mais urgente, tamanha a carência de visões e narrativas nas quais os afrodescendentes sequer existam, pelo menos para além de estereótipos ambulantes.

“Nós precisamos de imagens do amanhã; e nosso povo precisa mais do que a maioria. Só tendo imagens nítidas e vitais das muitas alternativas, boas e ruins, de onde se pode ir, teremos qualquer controle sobre a maneira de como chegaremos lá”, disse o escritor Samuel Delany.

Essa “necessidade de imagens do amanhã”, conforme Delany salientou, trouxe naturalmente para mim a personagem Nina Onixé e todo seu universo. Isso, para mim, é a própria definição de afrofuturismo.

Fábio Kabral, 27/03/2020

ATIVIDADES

Exercícios de escrita criativa com enfoque na temática afrofuturista, para os alunos se expressarem e criarem suas histórias sobre afrofuturismo, atentando para as quatro características previamente mencionadas.

  1. A partir das perspectivas de questionamentos raciais e sociais do afrofuturismo, responda: quem é você no mundo?

Expectativa: promover um questionamento crítico sobre si e sobre o mundo.

  1. Vamos criar uma história! Comecemos pelo título. Se a sua vida fosse uma história de ficção especulativa, qual título teria?

Expectativa: estimular a criatividade e a inventividade a partir de si.

  1. Escreva, em um parágrafo, a sinopse da sua história de ficção especulativa. Experimente algo “fora do padrão”, seja num futuro ou passado, ou mundo alternativo.

Expectativa: promover a criação de narrativas mais diversas, mais representativas, em outros ambientes, outras eras, outros mundos.

  1. Com tudo que foi apresentado e com tudo que você aprendeu até aqui, escreva um conto da sua história de ficção! Não tenha medo, deixe sua imaginação voar! Lembre-se: uma história não é apenas contada em palavras; pode criar um quadro, uma música, uma escultura, uma ilustração… todas essas artes contam uma história.

Expectativa: estimular uma criação artística livre de amarras, a partir de todos os novos conhecimentos e questionamentos apresentados.

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