MACUMBAPUNK: Uma nova proposta de ficção especulativa

Preliminares

Olá. Meu nome é Fábio Kabral e eu criei este termo chamado Macumbapunk.

Criei o termo para classificar as minhas próprias obras de ficção a partir de “O caçador cibernético da Rua 13” (Malê, 2017). Não lembro exatamente quando o criei, sei que usei o termo de forma jocosa em algumas conversas informais. Porém, quando tomei conhecimento dos movimentos Sertãopunk e Amazofuturismo, aí passei a considerar o Macumbapunk de forma mais séria.

O termo é uma brincadeira, ou não. É um mero exercício narrativo, ou mais um termo redundante para se acrescentar aos inúmeros gêneros literários de ficção especulativa punk que surgem a todo momento. Talvez seja um desejo de contribuir com algo genuinamente afrobrasileiro (mesmo que eu não tenha nenhum apreço por esta nacionalidade brasileira) que possa inspirar a criação de novas narrativas feitas por pessoas negras nascidas aqui, especialmente novas histórias que valorizem as religiões de matriz africana.

De fato, as espiritualidades de matrizes africanas são o necessário centro de uma narrativa Macumbapunk.

Quem sou eu pra ficar criando termos

Para quem não me conhece, meu nome é Fábio Kabral. Segundo sei lá quem escreve a Wikipedia eu sou “um escritor afro-brasileiro de literatura fantástica e ficção científica, seus livros abordam temas como sexualidade, ancestralidade africana, afrocentrismo e afrofuturismo”. 

Não sou bom de classificações mas entendo que não sou escritor de ficção científica e sim de fantasia mesmo, ficção fantástica. Sempre consumi fantasia nas mais variadas midias: literatura, videogames, gibis, músicas; desde moleque adoro RPGs e tudo relacionado; tudo que escrevo possui influências óbvias dos meus gostos, todas as minhas histórias apresentam magia, monstros e superpoderres.

Outra informação relevante para este artigo: sou iniciado em Oxóssi por meio do Candomblé de Nação Ketu, um dos cultos afrobrasileiros aos Orixás. Ou seja, experimento e pratico essa espiritualidade em primeira mão.

Segundo os especialistas, eu sou um dos principais representantes do Afrofuturismo no Brasil. Uau. Entendo que isso acontece porque tudo o que eu escrevo contempla a temática afrofuturista, desde sempre, de forma natural, antes mesmo de eu saber que existia a palavra Afrofuturismo. Conforme eu disse certa vez numa entrevista, “eu, que sou um homem negro, leitor de quadrinhos e RPGs, jogador de videogames, leitor de várias ficções e de teorias afrocêntricas, e iniciado no Candomblé, expresso toda essa carga de vivências e estudos nos romances e histórias que escrevo. Isso é Afrofuturismo”.

Nossa que bonito.

Costumo dizer que não ligo para rótulos e estou aqui criando um. Qual sentido?

Minha intenção não é criar mais divisões e mais nomes sobre a mesma coisa. Não deixa de ser Afrofuturismo, ou fantasia, ou ficção, ou sei lá o que quiserem. É mais como eu entendo o que eu escrevo, meus próprios livros e livros semelhantes que venham a surgir. Seria/será interessante se/quando surgirem obras semelhantes, por isso tenho o interesse de cunhar este novo termo.

Oxóssi by Walmir Archanjo

De onde vem esse tal “punk”? Que gêneros literários são esses?

“Punk” é aquela palavra de tantos significados que já não possui significado algum. Acredito que “rebeldia” ainda seja a raiz da palavra punk. O “punk” a que me refiro neste artigo se trata de um sufixo comum que classifica muitas obras de ficção especulativa. Na verdade são derivativos do Cyberpunk, o “pai de todos os punks” na literatura. Até hoje o “trio de ferro” dos punks é o Cyberpunk, o Steampunk e o Dieselpunk, são os três mais conhecidos e difundidos há décadas nos mais diversos formatos de mídia, tanto que há até os “funks” correspondentes.

Não pretendo aqui me alongar demais sobre isso, já que há muitos textos sobre e vale a pesquisa para saber mais. É apenas uma palavrinha para quem não está familiarizado com o sufixo. Eu pessoalmente gosto muito de ler sobre esses gêneros.

Xangô, Iemanjá e Iansã by Lambuja

Tá, chega de enrolação! O que é “Macumbapunk” afinal?

Macumbapunk são narrativas de ficção especulativa cujo universo gira em torno das espiritualidades de matrizes africanas. Essas espiritualidades e seu arcabouço de divindades e entidades definem a realidade e as leis do universo onde a narrativa acontece.

A ficção especulativa, gênero literário que explora tanto as possibilidades da imaginação, no Brasil, infelizmente, se limita a reproduzir imaginários estrangeiros, especialmente europeus, em vez de investigar as riquíssimas mitologias de matrizes africanas e indígenas que existem no país. Não são mero folclore; são mitologias milenares, que carregam toda uma carga de fundamentos, complexidade e história, uma vez que suas matrizes de origem são muito mais antigas que as nações europeias que invadiram esta terra.

Acredito que o potencial do Macumbapunk é enorme justamente por essa imensa riqueza de complexidades de suas mitologias, que estão vivas ainda hoje graças às religiões de matrizes africanas, tanto as do Brasil quanto as das demais Américas.

Apenas imaginem: como seria um confederado galáctico cujas autoridades especiais são as entidades da umbanda? Uma colônia lunar regida por sacerdotisas do tambor de mina? Uma sociedade interdimensional de anciãos santeros que viajam para outras realidades? Um império mágico de feiticeiros vodum num mundo de alta fantasia? Imaginem!

As possibilidades são infinitas; e eu apenas uma pessoa. Quantas novas histórias vocês são capazes de criar a partir dessas inspirações? Convido todo mundo a esse exercício, para que novas e belas histórias inspiradas nos mitos ancestrais venham a povoar este mundo.

Oxóssi, o caçador de monstros

Aplicando o Macumbapunk na prática: um exemplo

Um dos motivos que considero pertinente a criação deste novo termo punk é especificar algo que muita gente vem atribuindo como pré-requisito à temática afrofuturista;  para mim é triste dizer isso, mas o Afrofuturismo não é necessariamente sobre ancestralidade. Já o Macumbapunk, sim.

Tal como fiz quando comecei a entender o Afrofuturismo na minha visão, vou explicar o Macumbapunk a partir do meu próprio universo literário:

– Ketu Três é uma metrópole cujo patrono é a divindade Oxóssi. Ele é o Rei Caçador, a representação personificada do conhecimento, da coragem e da fartura. Esses aspectos são extremamente valorizados em Ketu Três, uma sociedade de artistas, sábios, pesquisadores, professores, celebridades;

– Todos os moradores de Ketu Três são filhos dos Orixás, todos conhecem suas divindades ancestrais logo no nascimento;

– A estrutura social da sociedade fictícia de Ketu Três praticamente segue a hierarquia do Candomblé. As Corporações são Casas de Axé (Ilês) que se tornaram grandes empresas;

– Ainda no exemplo das religiões de matrizes africanas no Brasil, Ketu Três é uma sociedade matriarcal; as famosas sacerdotisas-empresárias, autoridades máximas dos Ilês Axés Empresariais, são as governantes. São ialorixás CEOs com poderes paranormais;

– Ah sim, cerca de 10% da população de Ketu Três são o que chamamos de emí ejé (èmi ẹjẹ), pessoas que herdaram o “sangue espiritual” das divindades. Esses indivíduos, que estão no topo da sociedade, possuem superpoderes, dons sobrenaturais relacionados aos Orixás que os regem;

– A rebeldia “punk” é representada pelos Ixoté (Iṣọtẹ), uma organização clandestina liderada por emí ejé rebeldes que questionam e se opõem à elite psíquica que governa a cidade. Mesmo nesta sociedade supostamente ideal, há os egoísmos e crueldades humanas que parasitam a população, assim como há aqueles que lutam pelo que acreditam por todos os meios necessários;

– A tecnologia de Ketu Três é movida pela energia eletromagnética dos espíritos ancestrais. Divindades e entidades fantasmagóricas das mais diversas habitam todos os artefatos tecnológicos, dos carros voadores aos celulares holográficos, computadores, máquinas, tudo. Tudo é sacralizado com o axé de rituais cotidianos que todos praticam e conhecem;

– Por fim, e não menos importante: Ketu Três é uma metrópole onde o desenvolvimento tecnológico anda de mãos dadas com a preservação da natureza. De fato, há mato, árvores, arbusto e verde pra todo lado; nas casinhas mais simples aos mais altos arranha-céus; nas ruas, avenidas; parques florestais que são verdadeiras florestas. Uma sociedade regida pela lei dos Orixás, que exige testa no chão perante os poderes da natureza, não poderia ser diferente.

Esse é um resumo bem resumido de Ketu Três, e um exemplo de uma sociedade fictícia Macumbapunk. Podemos dizer que é um mundo Pós-Cyberpunk? Talvez. Solarpunk? Lembra bastante. Afrofuturismo? Com toda certeza! Todo Afrofuturismo é assim? Não! Porque possui toda uma especificidade a ser explorada neste oceano de possibilidades.

Jamila Olabamiji by Rodrigo Candido

Eu vim do futuro para responder suas dúvidas!

Vamos então responder algumas possíveis perguntas frequentes:

– Sociedades Macumbapunk são necessariamente utópicas?

R: Tal como o Afrofuturismo, acredito que o Macumbapunk pode ser tanto utópico quanto distópico, depende de quem escreve, do que deseja passar com sua escrita. Digamos que a pessoa autora escreva uma história em que a espiritualidade de matriz africana é a realidade do mundo e ainda assim sofre perseguição por uma sociedade supremacista alienígena que domina o planeta ou sei lá (olha só as possibilidades!)

– Macumbapunk é a mesma coisa que Afrofuturismo? É uma subcategoria do Afrofuturismo?

R: Não e sim. Poder ser ou não. Esse termo Macumbapunk nasceu na minha cabeçca refletindo sobre as histórias que faço, que são naturalmente afrofuturistas… e também fantasia, (muita gente acha que é) ficção científica e etc. E também Macumbapunk. Só que uma narrativa Macumbapunk pode não ser necessariamente afrofuturista, uma vez que, ao contrário do Afrofuturismo, a autoria negra não seria um pré-requisito, já que as espiritualidades de matrizes africanas são abertas para todos.

– Qual a diferença entre Macumbapunk e Afrofuturismo afinal?

R: As diferenças residem em duas questões (que não necessariamente endosso mas é a realidade): 1) O Afrofuturismo não é exclusivamente sobre ancestralidade, enquanto o Macumbapunk, sim; 2) O Afrofuturismo tem como pré-requisito a autoria negra, enquanto o Macumbapunk, não.

– Macumbapunk é literatura religiosa? Você quer impor sua religião nas pessoas??

R: Nunca irei concordar que o Macumbapunk seja tachado como “literatura religiosa”. É ficção especulativa mesmo, com viés mitológico, não religioso. Até porque o conceito ocidental de religião, de devoção sem questionamos e conversão forçada, simplesmente não faz sentido para mim; minha visão pessoal sobre a espiritualidade ancestral é, digamos, diferente do que se espera, mas isso é conversa para outro momento.

– Só pode escrever Macumbapunk quem pratica essas religiões? Só quem é iniciado??

R: Se me perguntar o que prefiro, eu diria que sim… Só que o que eu prefiro não interessa perante a abrangência da realidade. A resposta é não para ambas as perguntas. Lógico que para quem “é de dentro” é mais fácil e natural escrever Macumbapunk. Só posso desejar que pesquisem bastante sobre a espiritualidade escolhida como base do seu universo, e façam tudo com muito respeito. Especialmente para quem é pessoa preta, que deseja de alguma forma se reconectar com sua ancestralidade por meio desta proposta, desde já tem a minha benção. Vai sem medo!

(Tudo acima pode estar sujeito a mudanças ou não.)

(Conforme mais perguntas do futuro surjam, serão inseridas aqui.)

Chegou a hora da conclusão

Macumbapunk é uma proposta de termo que acaba de nascer. Por enquanto não tenho mais nada a dizer; talvez detalhe mais sobre isso ou não, mas prefiro deixar na mão dos especialistas e acadêmicos, já que sou apenas um escritor.

Minha intenção é somar e inspirar, não dividir ou retrair. Talvez, seja redundante e inútil para uns, talvez seja pertinente e inspirador para outros…

De minha parte, é fascinante demais enxergar os ricos imaginários das espiritualidades ancestrais e pensar na criação de novos mundos estruturados na complexidade das religiões de matrizes africanas. A potência das novas histórias que estão por vir é simplesmente incomensurável, e me anima muito em viver para ver esses novos mundos.

Afinal, a ficção possui esse poder enorme de moldar o potencial humano e nos guiar nos guiar na criação de novos futuros…

Que os ancestrais olhem por nós, hoje e sempre.

Fábio Kabral, 16/05/2020

8 comentários

  1. Adorei esse artigo, camarada Kabral! Bate com alguns conflitos que sempre tive com o termo afrofuturismo e com tudo que ele carrega para materiais feitos aqui, por exemplo, muitas produções tendo Wakanda como a única referência para afrofuturismo, como se o movimento fosse tão limitado aos que os pretos americanos definiram. Nossas vivências são parecidas mas nosso referencial…não é o mesmo, então, MUITA coisa pode se diferenciar tanto nos escritos quanto plasticamente.

    E claro, vou considerar bastante suas reflexões sobre o Macumbapunk nas próximas vezes que for colocar Ketu 3 no papel 😉

  2. Muito interessante!
    William Gibson já flerta com essa ideia desde os primórdios do cyberpunk, há muitos elementos de teologia africana tanto na trilogia do Sprawl quanto na trilogia Blue Ant.

    Muito bom ver escritores jovens e que sabem o que estão falando dando mais ênfase a esses assuntos. Parabéns!!

  3. Rapaz, esse fabio ñ para de me intrigar e estimular a pensamentos aguncados na minha, cabeça. Tenho uma obra no wattpad que trata-se de seres chamados inciorporados que fazm parte de uma ordem que preza pelo equilibrio e seres corrompidos, tudo dentro da itanlogia macumbistica, sao o que imagino durante conversas e trabalhos na gira e com os guias. https://www.wattpad.com/story/155001836?utm_source=android&utm_medium=com.whatsapp&utm_content=story_info&wp_page=story_details_button&wp_uname=EdVulcao&wp_originator=0YM0teTYEsbRnqC2YVNq%2BZrvvwpv1FnmI0wpKyzOCHU61IXalCHahEj%2BpZR8a7Imy1%2BjlAPRLOeHk%2BiBIJLhWOs8jPj7tHHSJWCGn%2B0%2Bg5dDfam%2Fxzw02DdaqFlzfHox&_branch_match_id=801834141104308171

  4. Salve! Proposta mais que necessária. Sempre sinto que a ficção científica no Brasil fica pra trás em relação a temas mais “realistas”, inclusive no que diz respeito a questões afro, como se um fosse um gênero que não desse conta de abordar a realidade com seriedade. Eu escrevi um conto distópico chamado Banzopunk há uns anos atrás que foi publicado agora pela https://www.instagram.com/anansi.editora/ . Foge um pouco a proposta de Macumbapunk por focar mais nos conflito sobre ser preto no ambiente eurocêntrico de um futuro próximo, contudo a questão da ancestralidade tá presente, ainda que numa caracterização mais materialista que “mitológica”, sem deixar de tratar do âmbito espirtual. Há também um elemento inspirado pela ideia de Orun. Eu vejo como uma história que transita entre cyber/biopunk e fantasia, mas sempre tem algo que só quem lê enxerga. Segue a leitura que fiz de um trecho para promover a revista em que o conto foi publicado – https://www.instagram.com/p/CAG0Bm4A8K4

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