[Afrofuturismo: Palavra Chave] 11. Empoderamento*

Uma menininha de pele bem escurinha, cabelo crespinho amarrado estilo maria-chiquinha, trajando um vestidinho branco, flutuava no ar, a poucos metros do chão, e, com meros gestos, moldava todo o espectro luminoso ao seu redor, manipulando a luz emitida pelos postes e holofotes, cartazes eletrônicos e propagandas holográficas dos prédios, submetendo todo o brilho à sua vontade. Em plena Rua Treze, a avenida central de Ketu Três, Setor 9, início de noite. Várias pessoas ao redor olhavam maravilhadas, enquanto que outras passavam voando por ali desinteressadas.

A expressão de fascinação da maioria e de indiferença de quem igualmente manifestava superpoderes destoavam completamente da face de menosprezo de Everaldo Ajibola, que comentou com sua colega de trabalho, Gumercinda Afolarin:

– Que bosta é essa… uma menininha ẹmí ẹjẹ… “sangue dos espíritos”… se exibindo na frente de todo mundo e todo mundo aplaudindo… que gente patética!

– Se acha patético – questionou Gumercinda – por que você é mais um parado aí olhando?

– Porque eu tenho o direito de reclamar! – exclamou Everaldo – Não tenho?

– Tem, ué, pra mim tanto faz, só não quero chegar atrasada no trabalho…

– Olha só pra essa gente!

– Estou olhando e continuo não querendo me atrasar, Everaldo…

Só que Everaldo começou a andar em círculos, ali mesmo no meio da rua, enquanto que o círculo maior permanecia sendo o de pessoas ao redor da menininha. Everaldo Ajibola, percebendo ou não, estava gesticulando e discursando em voz alta, mas Gumercinda quase não o escutava porque o clamor do círculo de pessoas era muito maior.

– É um absurdo esta sociedade! Somos lambe-botas dos ẹmí ẹjẹ! Tentando ser como eles! Olha para esses zeladores engravatados e essas sacerdotisas executivas que passam voando! De nariz empinado! Sem dar a mínima atenção ao clamor popular! Sabem que é só mais uma menina de linhagem nobre que nem eles! Descobrindo os seus dons sobrenaturais! Os superpoderes que nós não temos!!

– Minha mãe Ọṣun dai-me forças… – suspirou Gumercinda.

– Esses de pele ainda mais escura que nós! Esses retintos! Se acham o máximo!! Só porque são de linhagem nobre! Só porque tem esses poderes psíquicos!! E essa gente ainda fica aplaudindo!! E nós, temos o quê?

– Temos um emprego que vamos perder – objetivou Gumercinda – se continuarmos aqui perdendo tempo com essas suas baboseiras…

– Baboseiras, você diz! – exclamou Everaldo – Porém, eu sei! Eu tenho consciência! Eu, Everaldo Ajibola, sou um sujeito, e não objeto da história! Eu sou consciente do sistema! Eu sei como funciona a nossa sociedade! Estou consciente de que temos de lutar pelos nossos direitos! Eu tenho poder!!

Foi então que Gumercinda Afolarin, gorda e maior que Everaldo, balançando seu coque crespo, pegou o pequeno homem pelo colarinho, e disse, bem na cara dele:

– Poder de quê, meu filho? Você acabou de falar que não temos poder nenhum. Quem tem poder é aquela menininha ali, que quando crescer vai se tornar uma sacerdotisa-empresária, seguindo os passos da mãe, que tá ali ó, de trajes cerimoniais, olhando tudo com atenção. Poder tem e terá essa menina, quando se tornar chefe de uma grande instituição, que vai empregar gente como nós, provavelmente nossos filhos, que não terão poder nenhum, que nem a gente. Você alegar que tem consciência não te dá poder de nada. Poder não é querer, não é um sentimento, poder é você submeter as coisas e pessoas à sua vontade. Que nem aquela menina tá ali ó, submetendo uma força da natureza à vontade dela, submetendo as pessoas ali ó, à vontade dela. Que nem aquela mãe dela ali ó, tá vendo, com a mão na testa, influenciando a mente das pessoas com poderes psíquicos?? Isso é poder. Você não tem nada, é só um homem barrigudo e frustrado vivendo uma vidinha medíocre…

Gumercinda soltou Everaldo, que quase caiu de bunda no chão, atordoado. Ele ficou olhando para baixo, sem falar nada, enquanto ela esperava; quando ela ia falar de novo, ele disse:

– O que vai ter de almoço hoje? Ouvi dizer que tem coisa nova na cantina da empresa, né? Vamos indo… – E saiu andando atrás de Gumercinda, cabisbaixo, deixando para atrás os aplausos de uma multidão maravilhada com uma boneca de luz gigante criada em plena avenida por uma menininha empoderada de uns nove anos.

 

Fábio Kabral, 10/10/18

*Título solicitado por Carlyne Nardino

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