[Afrofuturismo: Palavra Chave] 9. Kemet*

– Gostaria de conversar umas obviedades contigo. É possível?

– Claro, meu bem. Adoro falar a respeito do que todos sabemos. Por onde começamos?

André Babalola e Cristiano Durojaiye estavam deitados de mãos dadas numa cama redonda de colchão grosso, que flutuava a centímetros do chão. Um tinha o black power amassado no travesseiro, o outro tinha os dreads esparramados, tão longos que quase tocavam o chão. Estavam num quarto escuro, iluminado por uma ankh enorme, que emitia uma fluorescência dourada e repousava em cima de um criado-mudo em forma de pirâmide em miniatura. As janelas mostravam que a noite soprava lá fora.

André olhava para a ankh, enquanto Cristiano falou:

– Vamos, diga.

– É uma beleza, não é? – começou Cristiano – A origem melaninada das civilizações. Tudo o que conhecemos por ciência, arte, tecnologia, filosofia e literatura surgiu primeiro no Vale do Nilo, criado por nós, povo melaninado descendente do Continente…

– Obviedades, realmente – disse André – Quem não sabe disso?

– Sei lá. Talvez nalguma dimensão paralela perdida, na qual nossa origem é negada, na qual vivemos num estado tão lastimável que somos caçados e mortos feito animais e vivemos uma existência precária…

André acariciou com suavidade o rosto de Cristiano, e disse:

– Ah, menino. Você viaja! Isso quase aconteceu quando fomos dominados pelos alienígenas. Mas nossos antepassados acabaram com todos eles.

– Verdade – disse Cristiano, sorrindo – Imagina, um mundo que negasse que somos a origem de toda a tecnologia e civilização.

– Imagina se dissessem que nossos antepassados pioneiros fossem, na verdade, alienígenas!

– Eles realmente inventaram essa propaganda de que seríamos “tribais” e “primitivos”…

– Está tudo nos livros de história.

– …inclusive que foram os nossos ancestrais de Ilê-Ifé quem ensinou civilização a esse povo das pirâmides do qual você tanto gosta, Andrezinho! Só por isso que temos essa ankh de neon aqui no nosso quarto, em vez das ferramentas do meu pai Ògún, o verdadeiro criador da tecnologia!!

André Babalola dou uma sonora gargalhada, e em seguida deu um beijo caloroso em seu amor, Cristiano Durojaiye.

 

Fábio Kabral, 08/10/18

*Título solicitado por Juliana Aparecida de Souza Guilherme

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