[Afrofuturismo: Palavra Chave] 8. Cápsula do Tempo*

– Eu não aguento mais!!

Estava aos pés de uma grande árvore. Havia gritos de horror, gritos de medo e gritos de fúria por toda a parte. Uma cacofonia perversa preenchia a noite, enquanto Letícia Tanimola tapava os ouvidos. Aos pés da grande árvore, vestida com trapos brancos, os cabelos crespos desgrenhados, a pele melaninada toda ferida, ela se agachava em posição fetal, tentando se esconder do terror do mundo. Mas era inútil: ela ouvia cada osso quebrado, cada cabeça decepada, cada lâmina perfurando mais uma alma infeliz. Estava numa mata fechada que ardia cada vez mais com fogo e explosões, enquanto seres humanos, o povo melaninado, lutavam pelo direito de existir. Porém, os alienígenas não desistiam do seu intento de dominar e exterminar todos os seres humanos que encontrassem pela frente.

Letícia se lembra, infelizmente ela se lembra. Seu nome não era Letícia, era outro – este, infelizmente, ela não se lembra… pois veio para esta terra estranha ainda bebê. Foi arrancada de sua terra natal ainda criança. Letícia Tanimola se lembra de quando estava no barco com a sua mãe, um dos horríveis barcos voadores dos alienígenas. Letícia não vai falar aqui sobre os detalhes sórdidos dos tumbeiros que massacraram milhares de seres humanos já no percurso. Não, esse gosto pelo sadismo é coisa dos alienígenas. E que seres eram esses? Coisas repugnantes e pálidas que não merecem uma maior descrição – simples assim…

Em uma das grandes casas dos alienígenas, nas quais seres humanos eram obrigados a trabalhar e servir, houve uma grande revolta, e o povo estava colocando fogo em tudo. Os alienígenas tentavam resistir, mas a fúria dos que foram escravizados era tão intensa que pareciam guerreiros ancestrais com poderes magnânimos – e, de fato, os revoltosos usavam de pirocinese para tacar fogo em tudo, ataques telepáticos e telecinéticos para destruir os alienígenas e vários outros dons sobrenaturais herdados dos antepassados. Mas os raptores usavam sua tecnologia arcaica de chumbo e pólvora, de forma que o massacre se equilibrava em sangue derramado. A selvageria reverberava, e Letícia, que servia à família alienígena como arrumadeira, acabou largando tudo para trás e saiu correndo mata adentro, desesperada para fugir de tudo aquilo para sempre.

– Não aguento mais! – berrou ela, agachada em posição fetal, quando encontrou a grande árvore, sua árvore predileta e maior de todas as árvores daquela região – Não quero mais ficar aqui! Não quero!! Quero ir embora daqui para sempre!!!

Letícia Tanimola havia berrado bem do fundo da sua alma, e do fundo da sua alma a energia eletromagnética do seu sangue melaninado havia reagido…

…e então, quando ela abriu os olhos, percebeu que não havia mais grito algum, nem escuridão alguma.

Estava diante da sua grande árvore, sim, mas tudo parecia diferente. A árvore parecia maior, e muito mais velha. Era um dia claro, sem nuvens no céu e uma atmosfera muito gostosa. Ainda era mata, mas estava repleta de pessoas e famílias felizes ao redor, fazendo piquenique no pé das árvores. Em vez do cheiro de carne queimada e tripas derramadas, havia o cheiro doce de ervas, perfumes e loções. Em vez de gritos, pios de passarinhos e o riso de crianças. E, atrás de Letícia, estava um homem e duas mulheres, pessoas melaninadas como ela, vestidas com trajes brancos, panos na cabeça e fios de conta.

Todos permaneceram calados por vários minutos, o que pareceu uma eternidade…

– Você… – disse o homem, finalmente – Você é Tanimola de Ìrókò…?

Letícia continuou parada no mesmo lugar, piscando, absorta, diante aquelas três pessoas. Tentava falar, mas simplesmente não sabia o que dizer.

– Você… deve ser nossa ancestral – continuou dizendo o homem, tão surpreso e absorto quanto Letícia – O Bàbáláwo previu a sua chegada, por isso estamos aqui. Mas, no fundo, não acreditávamos… Nós… nós somos seus descendentes de muitos, muitos anos há frente… nós… hã… por favor, nos acompanhe… nós explicaremos tudo…

– Mas… – disse Letícia – E os… eles… os alienígenas??

– Ah… – disse uma das mulheres, sorrindo – Nunca nem os vimos, porque hoje só existem no rodapé dos nossos livros de história! Nós vencemos, este mundo é nosso! Bem vinda a Ketu Três!

Letícia Tanimola, ainda com lágrimas no rosto, foi timidamente abrindo um grande sorriso, e foi tentando se acostumar à ideia de viver em um Mundo Novo.

 

Fábio Kabral, 05/10/18

*Título solicitado por Gabriela Mendes Chaves

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