[Afrofuturismo: Palavra Chave] 6. Empoderamento estético*

Lúcio Adesewa ficou olhando para si mesmo no espelho enquanto passava tinta no rosto com os dedos.

– Menino… olha só pra esse black. Minha coroa de rei…

Sentado num puff felpudo de oncinha, vestindo calças douradas bem justas e uma camisa azul cheia de plumas vistosas nos ombros, Lúcio de Lògún Ọdẹ pintava o próprio rosto com pós da terra utilizando a mão esquerda, enquanto que com a mão direita acariciava o próprio penteado: um black power imenso, negro e brilhante que nem a sua pele melaninada macia. A pintura que realizava na face consistia em diversas bolinhas azuis e douradas na região dos olhos, nariz e cabelo, além de listras geométricas na região da bochecha e testa.

– Você sabia que nem sempre foi assim? – disse alguém ao lado de Lúcio.

– Não era assim o quê, menino? – perguntou Lúcio, sem desviar o olhar do espelho e sem parar de se pintar.

Lúcio estava em seu próprio quarto, um aposento colorido cheio de pôsteres de celebridades: cantoras, poetisas, mega-empresárias e atletas super famosas. Atrás de Lúcio, em pé, estava Ernesto Iwalewa, seu melhor amigo, um rapaz de tranças longas e grossas que iam até a cintura, calça larga e camisa apertada, ambas coloridas, unhas pintadas e batom. Ernesto olhava para os pôsteres e olhava para seu amigo Lúcio, esperando sua vez de pintar o rosto também.

– Não sei como explicar – continuou dizendo Ernesto, enquanto enrolava uma de suas grossas tranças em seus dedos – Mas ouvi dizer de uma mais velha… Houve um tempo, numa época que muitas de nossas avós já até se esqueceram… mas houve um tempo em que nós, povo melaninado, éramos considerados feios, sujos… nossos cabelos eram chamados de… “cabelo duro”, “cabelo ruim”, ou algo assim…

– Quê?? – Lúcio até parou de se pintar, horrorizado – Cabelo ruim por quê? Por acaso nossos cabelos batiam em alguém? Eram cabelos malvados??

Ernesto soltou uns risinhos, enquanto que Lúcio continou falando.

– Cabelo duro?? Que doideira é essa? Olha só esses nossos crespos macios… cheirosos… a gente é ensinado a cuidar e amar os nossos cabelos desde que nascemos. Olha só esse meu black… nossos cabelos crescem pra cima porque são nossas coroas naturais, minha avó me ensinou…

– …a minha também – disse Ernesto, concordando, enquanto tentava não se distrair com a beleza e presença de uma mega-empresária de black power num poster.

– Que época medonha foi essa? – perguntou Lúcio.

– Foi a… foi quando nossos ancestrais viviam dominados pelos alienígenas que trouxeram nossos ancestrais em barcos voadores até aqui no Mundo Novo…

– Ah… – Lúcio ficou sério. Até então estava bem descontraído. Olhou bem nos olhos de seu amigo, Ernesto Iwalewa. E disse: – Bom. Estamos em Ketu Três. Dizer que o nosso povo é lindo é redundante. Somos descendentes do Continente, do Mundo Original. Esses alienígenas não existem mais, nossos ancestrais acabaram com todos eles… eles foram apenas uma interrupção na nossa história e nada mais.

– Verdade… – Ernesto concordou. Ficaram calados por meio segundo… até que Ernesto falou: – Cê viu que a Tati Adaramola voltou a namorar aquele bonitão da TV?

– Menino! Que bafo! Me conta!! – exclamou Lúcio, que voltou a se olhar no espelho para continuar se pintando com as marcas culturais de seus ancestrais.

 

Fábio Kabral, 03/10/18

*Título solicitado por Josué Goulart dos Santos

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