[Afrofuturismo: Palavra-Chave] 5. Travesty*

Gabrielly Morohundiya de Otín estava muito contente e nervosa, pois havia finalmente chegado o dia de diminuir o seu sofrimento. A garota alta e magra finalmente poderia ser ela mesma, em toda a sua plenitude. Estava na Clínica da Rainha Maravilhosa, na Rua Treze de Ketu Três; deitada numa mesa de pedra fria, num aposento de paredes brancas, toda repleta do cheiro doce de ervas medicinais, Gabrielly iria honrar o nome de sua família e cumprir o que o Bàbáláwo havia previsto: antes de atingir a maioridade, a menina iria se transformar da mesma forma que se transformou sua mãe ancestral, Ìyá Ọdẹ Otín.

A história de Ìyá Otín é bastante conhecida, mas, se vocês não conhecem, então vou lhes contar uma pequena parte. Dizem as lendas antigas que Otín era uma menina belíssima, muito amada por seus pais e parentes, considerada a mais bonita pessoa de toda a aldeia. Otín era jovial, rápida e esperta, aprendia tudo em pouco tempo, e estava sempre sorrindo… embora esse sorriso, na verdade, era um disfarce. A verdade é que a jovem era solitária e triste, sempre perambulando pelos cantos quando ninguém estava olhando, chorando quando estava somente na companhia das árvores e plantas que tanto amava. Nada parecia consolar a tristeza de Otín, pois ninguém, além de seus pais, conhecia o seu segredo.

Um dia, Otín foi chorar bem longe nas matas e não voltou mais para casa. Seus pais e amigos ficaram desesperados e saíram à sua procura, mas ninguém a encontrou, pois ela era muito hábil na floresta, sua terra natal. Otín não suportava mais a vergonha de não ser o que realmente era, e escolheu viver sozinha para sempre por não conseguir mais suportar a si mesma. Vários tempos se passaram, e vieram as dificuldades, pois Otín não sabia se virar sozinha ainda naquela mata enorme. Foi então que um caçador a encontrou, adormecida e sem roupa perto de uma árvore, e descobriu o seu segredo: o corpo dela era de um belo rapaz. Otín acordou e ficou horrorizada, tentando se cobrir com os trapos de suas roupas rasgadas, mas o caçador apenas sorriu e a cobriu com peles de animais. Otín ficou confusa, mas sorriu de volta.

O caçador convidou Otín para passear com ele, e a jovem acabou aprendendo a caçar e a viver na floresta, se tornando tão habilidosa quanto o seu mestre na arte da caça; suas aventuras se tornaram lendárias, e Otín atraiu para si grande renome. Ela acabou voltando para casa tempos depois, para o alívio e alegria de seus pais e amigos, que ficaram maravilhados em descobrir que a grande caçadora da qual todos estavam falando era a filha perdida da aldeia. Otín continuou suas caçadas com seu mestre e amigo, e nunca mais sentiu vergonha de si mesma, nem permitiria que qualquer um a ridicularizasse; ela havia se transformado no que sempre foi: uma linda mulher, forte e frágil, inteligente e sensível, bondosa e poderosa.

Ali na mesa de pedra fria, Gabrielly Morohundiya estava em prantos ao se relembrar da história de sua mãe ancestral Ọdẹ Otín, e olhou uma última vez para o seu próprio corpo de rapaz. As doutoras curandeiras entraram na sala e disseram que estava tudo pronto, e que ela poderia entrar na banheira, a banheira com ervas, banhos sagrados e água dos rios caudalosos da floresta. Gabrielly iria se transformar, da mesma forma que se transformou sua mãe Otín, não por sentir vergonha de si mesma, não por se sentir ridicularizada, e sim para se sentir plena, livre, para ser e sentir o que realmente era, desde seu nascimento.

 

Fábio Kabral, 02/10/18

*Título sugerido por Alef R. Martins

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