[Afrofuturismo: Palavra-Chave] 3. Acertou ontem a pedra que atirou hoje para o amanhã

Elisete Eniolurunda acordou bêbada de sono. Estava no meio de uma estrada vazia, no meio do nada. Sério, não havia nada além de terra avermelhada e barro, pedras e rochas, e um sol bem forte brilhando no alto do céu. Elisete ainda vestia seu terninho de executiva do dia anterior, preto com detalhes geométricos em vermelho, e suas tranças vermelhas estavam sujas de terra, já que ela havia dormido de cara no chão. A pele preta de Elisete estava ainda mais preta debaixo daquele sol forte, mas não estava nem um pouco suada; a moça começou a andar, sorrindo bastante com o passarinho morto em suas mãos – afinal, não era todos os dias em que se rasgava as leis da realidade ao meio.

Mancando um pouco, Elisete seguiu em frente, olhando para o horizonte de nada em lugar nenhum. Não sabia muito o que fazer, e tentava o máximo possível não se importar. O que estava feito, estava feito e pronto. O passarinho não voltaria mais a viver, e ela não voltaria mais para casa. Seguiu andando, sem rumo, morrendo de fome e sede, curiosa para ver até onde tudo isso a levaria. Pensou em todas as escolhas que fez e não se arrependia de nada. Só lamentava ter perdido aquela promoção de sapatos transgênicos com asas, mas tudo bem – seria bacana sair voando por aí em vez de arrastar os pés no chão em barro quente.

As horas iam passando e o sol continuava queimando. Estava tão quente que era incrível que o chão ainda não tivesse derretido. Talvez houvesse nuvens no céu, se houvesse água para ser evaporada. O passarinho na mão de Elisete estava virando pena e osso, já que a carne havia se ressecado rapidamente. A melanina da moça estava alcançando altos índices de acumulação de calor, e seus olhos castanhos estavam se tornando avermelhados. Suas roupas estavam já puídas e em frangalhos. Sua língua mais parecia palha seca, tamanha era a sua sede. Seu estômago estava se atrofiando devido à fome extrema. Elisete estava chegando ao seu limite, prestes a desmaiar a qualquer momento no meio de um deserto fervilhante de absolutamente nada sem sentido nenhum.

Finalmente, já quase caindo de joelhos, e usando suas últimas forças, Elisete Eniolurunda jogou o passarinho para o alto. O corpo ressequido do bichinho simplesmente caiu no chão. E nada aconteceu. A moça tentou gargalhar de satisfação, mas não tinha mais energias para isso. Ela despencou simplesmente no chão, e, quando seu corpo sem vida tocou o solo, pegou fogo numa labareda tremenda. O fogo se alastrou pelo mundo e consumiu tudo…

…Até que nasceu uma menina de parto natural, na Clínica das Encruzilhadas Tortas, na Rua Treze de Ketu Três. Era o dia que começava a semana, e o sol estava a pino. Nasceu olhando com atenção para um passarinho na janela, que piava obscenidades enquanto a mãe paria a criança com dificuldade. A parteira, Elisa Eniolurunda, uma doutora curandeira muito famosa por ter parido celebridades, mais tarde comunicou, num programa de televisão, que aquela criança tão escurinha tinha uma fornalha no lugar da alma; era tão faminta que comia qualquer coisa – que nem aquele passarinho sacana da janela, que a menina acabou devorando de uma só vez, quando ele se atreveu a chegar mais perto para zombar de sua mãe, e acabou virando só pena e osso numa história dessas qualquer.

 

Fábio Kabral, 28/09/18

*Título sugerido por Vinícius Rocha – Afrokaoss

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