[Afrofuturismo: Palavra Chave] 1. Tesouro Negro*

Gisele Abayomi descia as velhas escadas de pedra com cuidado. A noite já havia caído, e os espíritos da mata não cessavam com seus ruídos de insetos e vermes comedores de carniça. O escadão cortava um terreno bastante amplo de mata fechada, e na rua lá em cima, de onde a escadaria começava, poucos carros passavam. Árvores farfalhavam suas folhas ao serem tocadas pela brisa, e as aves noturnas que por ali circulavam pareciam entoar uma canção fúnebre. Felizmente, Abayomi havia trazido consigo um nulificador portátil de energias negativas, desenvolvido pelo instituto de pesquisa no qual ela trabalha; tratava-se de um pequeno aparelho de metal, semelhante a um telefone celular, que emitia luminosidades fantasmagóricas que espantam espíritos sinistros, além de iluminar o caminho à frente.

A escadaria terminou numa pequena clareira com chão de barro. Além do farfalhar das folhas, das aves e dos insetos, nada mais parecia se mover. A luz distante da fogueira indicava que Abayomi estava perto do seu objetivo, porém não tão perto quanto ela gostaria. Apesar de seus 1,55 metros de altura, a moça tentava convencer a si própria de que não sentia medo algum. Vestia um terninho colorido, uma saia e sapatos – tinha acabado de sair do trabalho. Suas tranças enraizadas balançavam enquanto ela caminhava devagar. Apesar do nulificador portátil, os sussurros do vento arrepiavam sua pele melaninada. Abayomi seguiu em frente, rumo à fogueira distante à sua frente.

Pareceu uma eternidade. Talvez tenha sido uma caminhada de apenas alguns minutos. Após fazer curvas no caminho, topar com árvores que pareciam ter brotado do nada, vermes carnívoros que tentaram roer seus sapatos e aves de duas cabeças que testavam os limites do nulificador, Gisele Abayomi finalmente havia alcançado os portões de grade de ferro. Muros baixos de barro separavam o terreno da mata fechada ao redor de tudo. Por entre as grades era possível ver a grande fogueira que havia guiado Abayomi até aqui. Ela atravessou os portões e viu três mulheres altas que a esperavam, vestidas com saias e indumentárias brancas. Abayomi se inclinou, dobrando os joelhos, para cumprimentar as suas mais velhas.

Então, a jovem executiva se virou para a pedra ao lado dos portões: a grande pedra negra, quase do tamanho dela própria, fincada no chão de terra, cercada de velas acesas, cuja luz bruxuleante refletia a oleosidade de dendê que recobria toda a pedra. Mas aquela grande pedra escura parecia brilhar por si própria, um brilho opaco invisível, uma sensação de muitas vidas, muitas histórias… e muitos poderes em ação e reação constante. As chamas, tanto das velas quanto da fogueira, pareciam se agitar ainda mais, como se fossem núcleos de energia ondulantes que fervilhavam o dinamismo selvagem do universo.

O olhar de Gisele Abayomi continuava fixo na grande pedra negra, como que num misto de fascínio e temor, enquanto ela tirava os sapatos, dobrava os joelhos e tocava a própria testa no chão, o chão de terra onde repousavam os ancestrais de sua linhagem.

– Bàbá mi Èṣù… – ela disse, finalmente – Peço permissão para começar os trabalhos…

 

Fábio Kabral, 25/09/18

*Título solicitado por Marina Fragoso

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