[Palavra Chave] Lanceiros Negros

Solicitado por Marina Dall’Onder

Lancero_de_la_época_de_Rivera

Acordei assustado. Chegaram dizendo, vem se alistar! Vem lutar pelo teu país! Melhor que viver escravizado aí, né não? Não falaram com essas palavras, mas falaram isso. Foi lá receber armas e lutar pela pátria. Tava geral ao redor trabalhando forçado, se desgastando e morrendo de tristeza, foi a vida que conheceu. Os alienígenas vieram nos barcos e nos raptaram pra esta terra estranha, não sei nem o que estou fazendo aqui. Nós, humanos, temos a pele escura, mas esses alienígenas são pálidos. Não entendo porque fizeram isso conosco, nunca fizemos isso com os nossos. Eu era um ser humano, mas os alienígenas me ensinaram que não somos mais. Humanos são apenas eles. Então nós, os bichos feios, escravizados, fomos convocados para lutar essa guerra que é deles, que não tem nada a ver conosco, mas nós, os bichos feios, temos de ir na frente, para que morram menos alienígenas, para que morram mais dos nossos. Eu não havia entendido assim antes mas entendi agora, agora que estou morrendo aqui sozinho. Fui me alistar, me deram armas e roupas. Não entendi, não andei a cavalo como os comandantes pálidos. Os comandantes, aliás, os superiores, eram todos pálidos. Pálidos não, humanos, eles eram humanos, eu não era mais, eu era o bicho feio. E bicho feio anda no chão, com os próprios pés, veste as piores roupas, e as piores armas. Tive um sonho do futuro, agora que estou morrendo aqui sozinho, só vai ter gravuras de bichos feios montados, com roupas bacanas. Mas não, estou morrendo aqui, esfarrapado, com uma lança de madeira podre. O que foi a guerra? A guerra não sei, não entendo o motivo dos pálidos. Pálidos não, humanos. Não entendi os motivos, mas eu tinha que perfurar o inimigo. E foi o que eu fiz. Eu lutei e me feri, lutei e protegi, me feri protegendo um pálido, digo, um humano. Fiz o meu papel. Uma, duas, três vezes. Várias vezes. Eu trabalhava bastante lá na fazenda, era desgastante. Aqui eu simplesmente quase morri um montão de vezes. Eu fiz o meu papel. Os pálidos humanos prometeram me libertar. Iam nos libertar. Não entendi. Alguns de nós falavam em se rebelar. Na verdade, nós falávamos disso sempre. Como nos libertaríamos e esquartejaríamos todos os pálidos. Da mesma forma que eles nos fizeram em pedaços quando nos arrancaram da nossa terra pra nos transformar em bichos feios aqui. Esquartejaram os nossos ancestrais e afundaram a nossa história. Íamos nos vingar, sim, íamos, era questão de tempo. Enquanto isso, lutávamos, forçosamente, as guerras deles. Por enquanto. Só que, um dia, pediram nossas armas. Não entendi. Aí, nos mandaram pra uma batalha! Sem armas? Os pálidos que eram do exército inimigo estavam lá, e nos despedaçaram. Então, na verdade, não estou morrendo sozinho, estou cercado de outros humanos, digo, outros bichos feios como eu. Estamos todos morrendo aqui. E os pálidos alienígenas, digo, os humanos, os do nosso lado e os do lado inimigo, se dando as mãos. Afinal, nos mataram antes que tivéssemos tempo de nos rebelar. Não entendi porque nessa visão do futuro estamos a cavalo com armas e roupas bonitas, pois na verdade estamos aqui, morrendo traídos nesta terra que não é nossa. E os pálidos estão rindo de novo. Eu fui um lanceiro, mais um bicho feio preto que morreu sozinho ao lado dos seus irmãos infelizes. Fim.

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