[Palavra Chave] Garganta cortada

Solicitado por Ana Cláudia Borguin

cut throat

Eu queria que saísse de dentro de mim todas as coisas ruins que me consomem. Então, deixei que cortassem a minha garganta.

Eu estou cheio de dúvidas. Eu vejo as pessoas sorrindo e não consigo acreditar que estejam felizes. Se você ler o que elas escrevem, perceberá que se lamentam pelos cantos, de forma legítima, a respeito dos seus dissabores, decepções e desamores. Eu quero dizer que o mundo é um bom lugar para se viver, mas esse bom lugar é cruel para quem não está preparado. Quem é que determina quem pode viver e quem não pode? Eu gostaria de ter mais critérios a respeito, gostaria de me desarmar e viver plenamente as escolhas que fiz.

Por isso, deixei que chegassem por detrás e cortassem a minha garganta.

As dúvidas se remexem aqui dentro. Os medos, os anseios, os temores. Os rancores. Minhas negações se contorcem, se estrangulam. O mundo não precisa me negar, pois eu já me nego constantemente. Eu gostaria de poder me libertar. Gostaria de poder acreditar que é possível. Eu rastejo na periferia das realizações, eu me diminuo e me contento com pouco, eu deixo passar oportunidades e eu não me esforço o suficiente para conseguir o que desejo. Eu prefiro me lamentar e culpar o mundo pelo meu insucesso. O mundo, sem dúvida, também é responsável, este bom lugar que é o mundo, que esmaga nossa autoestima e violenta nossos corpos. Só que eu simplesmente aceito que as coisas são assim e não me esforço para cumprir meu destino nesta terra. Essa coisa de destino existe mesmo? As dificuldades estão todas aqui, e o que me resta seria o esforço para suplantar esses obstáculos. Cada um tem o seu. Alguns estão mais encrencados do que outros. Mas o que eu estou fazendo realmente para mudar o meu destino?

Escolhi me encolher num beco escuro desses qualquer, enquanto a minha garganta sangra todas as minhas desilusões e decepções.

Como é que posso vencer esses monstros que estão dentro de mim? Como é que posso me tornar mais forte para vencer a batalha interior contra os demônios que me consomem? Se eu conseguir sobrepujar as monstruosidades que se alimentam da minha carne e do meu espírito, é certeza que eu venceria qualquer obstáculo que o mundo me impusesse. Pois a batalha mais importante é contra o inimigo interior, e esse inimigo também é alimentado pelos preconceitos e pelas violências do mundo. Só que eu não deveria permitir que as minhas monstruosidades se alimentassem dessas maldades que o mundo tentar me impor constantemente. Não é fácil, mas é possível. Sim, é!

Só que eu fugi dessa batalha. Eu não aguentei o tranco. Não consegui suportar as criaturas atrozes criadas pela fraqueza da minha alma. Não consegui suportar os rancores, os medos e os ódios bem alimentados e fortalecidos pelos preconceitos e violências do mundo. Eu permiti que crescessem e se tornassem forças terríveis, capazes de sobrepujar a minha própria vontade. Deixei que o medo, a insegurança, a falta de confiança se tornassem meus senhores. Deixei que a raiva guiasse as minhas ações. Deixei que a arrogância dissesse as minhas palavras. Deixei que o rancor se apoderasse dos meus sentimentos. Deixei que o ódio possuísse meu corpo.

E é por isso que eu não reagi. Vieram por trás e rasgaram a minha garganta. E foi aí que todas as minhas negações escapuliram livres, livres para se espalhar pelo mundo, deixando para o mundo a casca vazia e apodrecida de mais uma tentativa fracassada de ser humano.

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