[Palavra Chave] Depressão

Solicitado por Ângelo Antonio

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Aqui, no coração das trevas.

Não há nada em lugar nenhum. A vastidão é pálida e sem limites. Você está vagando sem rumo. Você está ajoelhado com o rosto afundando entre as mãos. Você está estirado no chão feito um lixo desses qualquer. Você está encolhido tentando sumir de todos os registros da existência.

Aqui é o coração das trevas. Nem mesmo os demônios ousam invadir a vastidão. Atrás de todos os muros de falsos sorrisos, uma criança chora em silêncio. Você fala alto, gesticula, até gargalha. A criança solitária treme de medo e estupor no nada além da existência.

Você subiu alto. Você escalou a montanha, após longas provações, superando inúmeros perigos e dificuldades. Você alcançou o topo todo cheio de si. E cheio de si ficou lá no alto.

Então você caiu. E se despedaçou. Bem no meio do coração das trevas.

A vastidão pálida não parece haver limites. Você vaga rumo a lugar nenhum. Você busca os pedaços de você mesmo. Está todo estilhaçado e deixando rastros. Em outras partes, você sabe que vários, vários estão voando por aí. Mas você está aqui, no coração das trevas, com suas asas quebradas, coberto com as cicatrizes das suas escolhas ruins, sangrando as culpas e os arrependimentos que transbordam da sua alma.

Você está no coração das trevas, e a vastidão pálida é enorme. Ainda há muito o que caminhar. Você gasta todas as poucas energias que tem para conseguir andar. Um passo de cada vez, um dia vivido por vez. Às vezes, você simplesmente permanece onde está, e a criança chora sem amparo na imensidão do nada. Às vezes, você consegue visitar outras paragens, consegue esboçar sorrisos e realizar seus afazeres. Mas você está bem, melhorou!, dizem outras crianças sorridentes, crianças aladas cheias de energia. Você sorri de volta e diz que está bem. Mesmo que esteja, na verdade, encolhido em posição fetal no coração das trevas.

Você não pode se relacionar agora. Você está gastando todas as energias que dispõe para conseguir andar. Rumo a lugar nenhum. Mas você está sorrindo, você sai de casa! Ora, você está bem! Só que ninguém consegue ver suas asas partidas sangrando culpas, tristezas, incertezas, desgostos. Todos os paraísos que você conquistou despencaram de uma só vez na sua cabeça. Você se esforça ao máximo para ir deixando para trás as conquistas que não existem mais. Você guarda um pedacinho de cada uma dessas conquistas perdidas bem nalgum canto do seu coração fragilizado, e segue em frente.

Você caiu bem alto para se espatifar bem no meio do coração das trevas. Você sorri alguns dias e até sai de casa para realizar seus afazeres. Só que, na verdade, você está vagando rumo a lugar nenhum. Você é seguido de perto pelas suas sombras mais sinistras. Elas lhe sussurram palavras cruéis. Palavras de desesperança.

Elas, as sombras mais perversas que escapuliram da sua alma, te dizem que nada vai dar certo, que é tudo culpa sua, que você fracassou outra vez, que você jamais conseguirá o que quer, que você vive uma ilusão e se desperdiça em devaneios inúteis, que você não merece nada de bom, que você vai sempre cometer os mesmos erros sempre, que você não serve pra nada, que você está muito abaixo das pessoas que admira, que todos os seus relacionamentos serão ruins, que ninguém nunca vai gostar realmente de você e sempre preferirá outras pessoas, que você sempre será uma decepção e nunca conseguirá ser um orgulho para ninguém, que todos estão vivendo e seguindo adiante menos você, que você é uma negação e uma vergonha, que você é um erro e jamais deveria ter existido, que você se desperdiça e desperdiça o ar que respira.

Você está no coração das trevas, vagando na vastidão rumo a lugar nenhum.

Você está ansioso para chegar a algum lugar, só que não adianta. Você está desesperado para voltar a brilhar, só que não adianta. Você está preocupado se vai voltar a errar, só que não adianta. Você está irritado por tudo que aconteceu, só que não adianta. Você está cansado, com sono, sem fome, sem energia, sem chão, sem nada.

Só que não adianta. Pois você está no coração das trevas.

Você escalou alto e caiu. Você está buscando a montanha, para tentar escalar de novo. Você vaga rumo a um futuro incerto. Você caiu na vastidão pálida e sem limites do coração das trevas, seguido pelas sombras malignas da sua própria alma. E está andando para frente, passo por passo, mesmo atolado na lama das suas lágrimas, mesmo sangrando culpas e arrependimentos pelas cicatrizes das suas escolhas ruins. Você está andando. Para frente.

Por isso, perdoe a si mesmo.

O sol voltará a brilhar. Algum dia.

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