[Palavra Chave] Predador

Solicitado por Emanuel Cantanhêde

Madame Crocodilo

Madame Crocodilo

O que ela mais gostava era sentir o gosto de sangue na boca.

Um odor denso e abafado se esparramava por toda parte. Era noite sem lua nem estrelas no Pântano do Esquecimento, um charco sem fim a sudoeste das cercanias da Cidade das Alturas. Insetos do tamanho de um punho dilaceravam pequenos pássaros, enquanto que larvas carnívoras se remexiam na lama imunda e devoravam lagartos descuidados que por ali rastejavam; tartarugas com cascos espinhentos duelavam contra cobras aquáticas de duas cabeças, e caranguejos de quatro garras lutavam pela vida contra ratazanas de costas farpadas. E todos fugiam para bem longe da enorme e inchada Madame Crocodilo que por ali serpenteava.

De repente, fizeram-se ouvir passos ainda mais pesados.  As criaturas ali presentes logo entenderam que um grupo grande se aproximava, aquele grupo que acha que é furtivo, mas todos sempre os percebem de longe; as larvas, os pássaros, os lagartas, as tartarugas, os caranguejos, tudo mais que se remexia vivo no pântano, rapidamente se dispersou e se meteu em tocas, rezando para não serem descobertos.

Menos Madame Crocodilo. Afinal, ela era o alvo.

O grupo chegou mais parto, e Madame Crocodilo os viu na escuridão. As criaturas conhecidas como seres humanos estavam armados com aquelas presas esquisitas que usam, aqueles barulhentos fazedores de trovão e aquela pele fria que era dura de morder. Os bichos humanos atacaram rápido, pareciam mais espertos do que da outra vez, aparecendo por todos os lados de uma só vez, sacando dentes e disparando todo aquele monte de som e luz que eles sempre vomitam.

Não  conseguiram sequer encostar na Madame Crocodilo.

Os olhos negros da Madame faiscaram, e então dois bichos humanos que estavam atrás gritaram seus braços e pernas eram destroçados por uma força invisível; outros dois se teleportaram para aparecer bem cima dela, mas Madame Crocodilo apenas olhou para cima e foram partidos ao meio, com as tripas se espalhando pelo charco; três dos que atacavam pela frente continuavam atacando, mas aí Madame Crocodilo piscou e então todos os ossos dos seus adversários se partiram, e eles morreram antes mesmo de caírem de cara na água escura. Os poucos bichos humanos que sobreviveram correram para bem longe e nunca mais voltaram ao Pântano do Esquecimento.

Madame Crocodilo adorava sentir o gosto de sangue na sua boca. As tripas ali espalhadas estavam bem frescas. Era tedioso descascar os bichos humanos quando vinham com toda aquela pele fria e dura cheia de fios, mas a carne era sempre muito boa, cheia de gostos engraçados que eles traziam lá daquela terra esquisita de coisas brilhantes onde eles viviam.

Depois de triturar e engolir carne e ossos e cuspir o que não interessava, Madame Crocodilo subiu no banco de areia, fechou os olhos e adormeceu. E nenhuma criatura do pântano ousou perturbar seu sono – afinal, só o bicho humano era estúpido o bastante para desafiar um Espírito Selvagem do Mundo Antigo.

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