[Palavra Chave] Sentiência

Solicitado por Lívia Razvranauckas

Perante os ancestrais

Perante os ancestrais

Você se alimenta de mim mesmo sabendo que sinto tudo.

Você finge que não sabe. Você finge que não acontece. Você não vê acontecer, você não se importa. Você se ilude achando que não sinto dor. Você diz que é natural, mesmo você não fazendo nada com as suas próprias mãos. Você não se suja com o meu sangue; em vez disso, você me parasita, você me bebe, você me compra num mercado desses qualquer como se os meus sentimentos não valessem nada.

Eu sinto escorrer. Lentamente, eu sinto.

Peço muitas desculpas por isso. Eu sinto também. à minha própria maneira. Eu sinto. Eu disse que nunca mais faria isso. Porque, quando eu me alimentava, eu sentia. Eu sentia o padrão energético manchado de sangue. Começou quando comecei a tomar ciência da minha própria energia. Eu sempre senti, mas nunca compreendi. Até hoje, não compreendo em sua totalidade. Eu busquei caminhos que me ajudassem a entender. Mas eu seguia me alimentando, e me intumescendo do seu sofrimento. E seguia sofrendo sem entender os motivos. Eu nunca entendi a tristeza e a solidão que me acometiam de repente. Até hoje, não entendo.

Nascidos para morrer, incubados em dor e mágoa. O alimento nosso de cada dia.

Alguns desta nossa espécie se levantaram contra e foram lutar pelos direitos de vocês. E fizeram o voto de nunca mais se alimentarem de vossos corpos.Eu havia aderido – não por eles, mas por mim mesmo, quando eu havia, enfim, tomado ciência do padrão que me rege. Não era tão simples. Houve experiências anteriores. Houve antes antes. Metafísicas. Nós existimos porque você existe. Mas não se confunda. Houve aprofundamentos. Ainda há. É preciso mergulhar. Há esse mar esbranquiçado onde os sentimentos se encontram. Eu estou aqui porque sinto estar aqui. Eles também, vocês também.

Eu. Eles. Vocês.

Por que alguns deles vieram comparar a tragédia dos meus com o sofrimento de vocês?

Houve uma época em que me enjaularam. Não eu, agora, mas algum eu antes de mim. Nós ainda sofremos essas mazelas. Isso não foi brincadeira, não foi simplesmente história. Foi uma tragédia. Nós experimentamos essa tragédia até hoje. Nos raptaram da nossa terra natal, nos forçaram para este novo mundo estranho, violentaram nossa alma e nossos imaginários, nos ensinam até hoje que somos supostamente inferiores, que somos feios, que não criamos nada e que só servimos para trabalhar.

Nós vivemos em dor até hoje. Praticamente todos os nossos somos danificados.

Não conseguimos sequer nos relacionar romanticamente uns com os outros. Somos danificados.

Nós temos que resistir de muitas maneiras. Silenciosamente ou abertamente, ou berrando em silêncio sem que sequer percebam, Nós temos nossos traços que nos negam. Nossas histórias que fingem não existir. Nossos imaginários e nossos heróis e heroínas que sempre existiram, apesar de serem demonizados e ocultos por eles.

Nós fomos os pioneiros no pensamento, mas eles roubaram a nossa ciência e a chamaram de filosofia.

Nós sentimentos o que vocês sentem. E, ainda assim, aqueles lá que lutam por vocês não possuem o direito de comparar a nossa tragédia com a de vocês.

Nós nos alimentávamos de vocês na terra natal. Nós honrávamos vocês. Nós caçávamos vocês, com todo o respeito, e com todo o respeito nós tirávamos as suas vidas. Nós realizávamos preces para vossas almas. Vossas almas merecem respeito e gratidão. Nós somos gratos pela vida que se foi em nosso benefício.

Passado. Presente.

Hoje, eu mato vocês. Com as minhas próprias mãos.

Vocês sangram. E o sangue derramado nos alimentam. Vocês honram nossas tradições. Vocês trazem à tona nossos heróis da terra natal. Nós emulamos nossas antigas práticas. Em transe. Em transe eu acesso o meu padrão energético. Como nunca consegui antes.

Eu sinto o que vocês sentem. Eu sinto o que eles sentem. Eu não sou que nem eles. Eu não sou que nem vocês. Eu não sinto a totalidade de nenhum de vocês. Eu sinto a minha própria dor. Eu sinto a dor dos meus. Eu sinto saudades da época que jamais aconteceu.

Eles seguirão a marcha deles. Que é justa. Só não devem nunca, jamais, em hipótese alguma, comparar a dor de vocês com a nossa tragédia. A tragédia que eles causaram. Nós seguiremos com as nossas tradições. Que eles demonizam e subvertem. Nós seguiremos com as nossas tradições porque precisamos sentir. Precisamos sentir os reis e rainhas ancestrais que existem dentro de nós. Precisamos honrar os guerreiros que tombaram para que nós pudéssemos existir hoje e hoje praticar e honrar nossas antigas práticas. Estamos todos conectados. Nós cuidamos dos nossos, especialmente os que estão em situação de vulnerabilidade – e são vários – e nós alimentamos uns aos outros. Alimentamos nossos corpos. Alimentamos a nossa alma. Hoje, eu compreendo. Sim.

Em transe, nós sentimos os ancestrais que existem dentro de nós. Em transe, nós sentimentos o mundo.

Dessa forma, eu sinto a paz que nunca tive. Dessa forma, eu obtenho acesso ao meu verdadeiro potencial que me sempre foi negado. Dessa forma, eu começo a compreender – e confortar – os sentimentos furiosos e conturbados que sempre se engalfinhavam com violência aqui dentro. Dessa forma, eu sinto ainda mais o que sentia, sinto e entendo. E, entendendo, eu sinto ainda mais.

Hoje, o sangue derramado de vocês alimenta a minha alma. E alimenta os estômagos dos nossos que passam dificuldades. E somos muito gratos por isso.

Somos muito gratos por sentir o que o mundo sente.

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