[Palavra Chave] Desejo x Desespero

Solicitado por Karen Quintarelli

[Palavra Chave] Desejo x Desespero

Você sabe o que eu quero.

Eu quero e quero querer, mas preferiria não querer o que eu quero. Ou ao menos não me importar com o que eu quero. Ou, quem sabe ainda, não dar a mínima por não dar a mínima para o que eu quero. Talvez fosse o cenário ideal.

O ideal é uma invenção para tranquilizar idiotas como eu que teimam em acreditar.

Não me acorde. Não há a menor necessidade disso. Gostaria que você me ouvisse enquanto eu sussurro teus beijos no escuro. Eu não tenho o que eu quero.

Elas são irmãs, você sabe. Elas se abraçam. Uma é linda pra caramba, a outra é horrenda. Uma veste trajes finos e cheira a perfume, a outra anda nua e fede a suor. Elas são irmãs e se amam.

Eu não me amo.

Eu quero o que eu quero. Só que eu nunca terei.

É uma idiotice, você sabe. Não existe de verdade. Não é real. Ninguém pode pegar na mão. Não tem como quantificar, qualificar.  Não existe no mundo real, sólido. Não tem como provar. Não é real.

Então, por que eu estou chorando tanto?

Eu sinto fervilhar. Sabe? Cada pisada firme na lama faz evaporar um pouco desta poça de sangue e vômito da qual sou feita. Eu sinto, remexendo dentro de mim. É como se todas as paredes fossem cimentadas com muco e diarreia. Eu gostaria que não chovesse tanto catarro nos meus olhos. Por que eu não me afogo de uma vez nesta lama de pus?

Eu não terei o que eu quero eu não terei o que eu quero eu não posso ter o que eu quero eu nunca conseguirei o que eu quero eu não consigo nem chegar perto do que eu quero eu não consigo deixar de querer o que eu quero eu não vou ter o que eu quero eu não.

Eu posso arrancar meu cérebro com as minhas próprias mãos? Eu queria apenas não precisar pensar por um tempo. Estou ficando sem opções. E não consigo me fazer entender.

Eu desejo alguma outra matéria. Alguma outra coisa que não está aqui. Eu não consigo compreender com exatidão. Eu quero essa sensação que está além do meu toque. Meu cheiro se entrelaça com o meu pensamento. Eu quero essa vontade que vai rasgar os céus até chegar ao universo de estrelas infinitas. Deveríamos ultrapassar todos os limites, eu e você. Se você também quisesse o que eu quero. Talvez algum dia eu consiga te dizer exatamente o que eu desejo. Provavelmente não. Enquanto isso, vou mergulhando cada vez mais fundo neste mar esbranquiçado, arrastada por essas algas que tentam estrangular as minhas pernas e procuram se enamorar com os meus neurônios. Somos danificados, todas e todos. Estamos tentando da melhor forma possível. Alguns gritam bem alto, vomitam toda a sua raiva, percorrem por todos os cantos berrando todas as suas tristezas. Outros fingem não se importar e se esforçam pra caramba para mostrar pra todo mundo o quanto não se importam. E há os que simplesmente se recolhem no canto mais claro da sala e afundam a cabeça entre as mãos. Que nem eu faço.

O salão é totalmente branco. É o horizonte sem fim de branquidade sem esperança.

Você sabe o que eu quero. Ou pelo menos acho que sei. A minha pretensão é achar que você me compreende. A minha arrogância é pensar que te entendo. Nós nunca nos encontraremos de verdade. Nós nunca seremos aquilo que poderíamos ser. Nós nunca seremos.

Eu quero o que eu quero. Só que eu nunca terei. Então só me restar mergulhar, afundar. Até me esquecer. E desaparecer.

Eu quero sumir para onde eu nunca mais possa me encontrar.

Eu quero.

Quero…

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