[Palavra Chave] Cidade Oca

Solicitado por ألين مخلص.

[Palavra Chave] Cidade Oca

Quando Lucas abriu os olhos, percebeu-se no meio da Avenida. Era fim de tarde, o sol exibia seus últimos raios para tingir o céu de laranja, onde pequenas nuvens navegavam sem muito interesse. Lucas olhou para o chão, e tremeu um pouco. A calçada era roxa, com algumas pedras em um púrpura lamentoso. Lucas até queria olhar para as pedras por mais um tempo, só que aí uma pessoa esbarrou nele. Era uma pessoa. Uma pessoa que esbarrou, mas passou direto, continuou andando. Lucas então olhou para aquela pessoa. Vestia roupas. Era duma tonalidade meio gelo, cria ele. Vestia roupas e olhava para o seu celular. Lucas queria poder dizer que, na verdade, qualquer um faz o que quiser, e que se a pessoa quiser mexer no celular no meio da rua, ela vai fazê-lo, e quem achar que ela está se alienando do mundo e ignorando todos ao seu redor, que ache. Afinal, Lucas tinha outras coisas para se preocupar, como, por exemplo, para as outras pessoas com roupas de tom gelado que passavam por ele e quase encostaram em sua pele espinhosa. Lucas não queria machucar ninguém, então se afastou antes que fosse tarde. No ponto de ônibus, se sentou, e aí um maltrapilho dele se aproximou, pedindo um coração em troca de uns trocados. Lucas meteu a mão no próprio peito, cravou suas garras e deu o coração ainda batendo ao estranho, que pagou com uns trocados amassados de muitos dólares; o maltrapilho comeu o coração ali mesmo, enquanto Lucas se afastava, meio enojado, com seu bolo de trocentos dólares no bolso. No asfalto da Avenida, que era feito de algodão-doce todo caramelado, passavam umas carroças puxadas por tamanduás azuis, gigantes e ferozes, que devoravam todas as carroças que se demoravam demais na sua frente. Então Lucas entrou na Galeria, pois as pessoas com roupas de tom gelo estavam todas mexendo no celular e se acumularam demais, não dava mais para passar ou transitar na calçada. Na Galeria, porém, se deparou com homenagens de papelão de uns senhores desbravadores de coisa alguma, que na verdade não tinham nada a ver com ele, nem se importava com outros de pele espinhosa que nem Lucas. Pois Lucas olhou ao redor e todos os que tinham celular ou nunca tiveram espinhos na pele ou fizeram tratamento para parecer menos espinhosos. Lucas então se sentiu sozinho, e não porque todos mexiam no celular e sim porque todos na Cidade não percebiam que os de pele espinhosa como Lucas na verdade tinham a pele das finas e firmes flores de todo o universo.

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